A respiração é um processo no qual nós raramente paramos para pensar. Ela ocorre automaticamente, sem que precisemos ter consciência disso. Entretanto, ao mesmo tempo é algo que a maioria das pessoas faz de forma incorreta. Se a respiração é uma função natural e espontânea do corpo, como se pode fazê-la incorretamente? A resposta é que a musculatura responsável pelo movimento da respiração tornou-se preguiçosa e deixou de propiciar um movimento de inalação e exalação adequados.
Toda nossa vida é inteiramente dependente da respiração. Se pararmos de respirar a vida imediatamente cessa no corpo. Vida e respiração estão intimamente conectadas. Lembre-se que, quando uma pessoa morre, dizemos que sua vida “expirou”, a mesma palavra usada para a expulsão do ar dos pulmões. É dito no Hatha Yoga Pradipika, texto ancestral do yoga:
“A vida é o período entre uma respiração e a seguinte; uma pessoa que respira pela metade, tem uma vida pela metade. Aquele que respira corretamente adquire controle sobre todo o ser.”
Os antigos iogues eram totalmente conscientes da importância da respiração; sem respiração, sem vida; respiração é vida.
No yoga diz-se que cada pessoa possui um número fixo de respirações na vida. Se ela respira lentamente então terá uma vida mais longa, uma vez que irá demorar mais a “gastar” sua cota de respirações. Se a pessoa respira rapidamente, a cota de respirações será gasta mais rapidamente, resultando numa vida mais curta. Aceitando ou não esta idéia, existe indubitavelmente uma grande parcela de verdade nisso. O ritmo acelerado da respiração é associado com tensão, medo, preocupação, etc, que levarão o indivíduo a ter problemas de saúde, insatisfação e naturalmente, uma vida mais curta. Uma pessoa que respira lentamente é relaxada, calma e feliz, gerando longevidade. Aquele que respira rapidamente tende a inalar pequena quantidade de ar e exalar a mesma pequena quantidade; isto irá favorecer o acúmulo de germes nas partes mais baixas dos pulmões. Ao contrário, aquele que respira mais lentamente tende a também respirar mais profundamente e consequentemente preencher os pulmões num nível mais profundo. Isto ajuda a remover o ar estagnado das partes mais baixas dos pulmões e a eliminar os germes. Há ainda outras razões para associar longevidade com respiração lenta. Por exemplo, a respiração profunda faz uma saudável massagem nos órgãos abdominais através do diafragma. Essa é uma função secundária e natural do processo respiratório que é normalmente pouco destacada. A massagem no fígado, estômago, etc, mantém estes órgãos em boas condições para poder expelir o sangue impuro e permitir que o sangue puro e oxigenado o substitua. A respiração superficial e curta não é capaz de fornecer aos órgãos internos a massagem que eles necessitam. A respiração superficial e curta também não fornece oxigênio suficiente para o corpo. Isto causa distúrbios funcionais e males ligados aos sistemas digestivo, circulatório e nervoso, uma vez que a eficiência desses sistemas é completamente dependente de uma oxigenação eficiente.
A vida moderna nos desconecta do ritmo natural da vida. Nossas funções corporais e nosso modo de vida deveriam ser guiados pelos nossos ritmos internos e do ambiente que nos cerca. Em situações normais, nossos batimentos cardíacos e nossa respiração procuram harmonizar-se mutuamente numa perfeita cooperação. Nossas vidas são determinadas pelo ritmo do amanhecer e do entardecer, assim como com o ritmo da lua e estrelas, num nível mais sutil. Assim como acontece com os animais e a natureza, nossas atividades deveriam ser determinadas pelo ritmo natural das coisas que nos circundam. Nós deveríamos estar em harmonia com o meio ambiente. Isso conduziria a uma vida saudável e feliz. Entretanto, a vida no mundo moderno, industrializado e materialista nos expurgou desses ciclos naturais. Por essa razão sofremos enfermidades e nos sentimos alienados de nosso meio ambiente. Este é um sentimento comum nas pessoas de hoje – eles não são capazes de relacionar-se com a vida ou com o ambiente que os cerca.
O que tudo isso tem a ver com respiração? Nos tempos antigos o homem era mais receptivo aos ritmos da natureza. Talvez não tivessem consciência de muitos deles, mas deixavam a vida fluir e se permitiam ser conduzidos pelo ritmo da natureza. Isto incluía também o processo respiratório. Não havia necessidade de considerar se estavam respirando corretamente ou não – seu modo de vida estava em sintonia com a natureza e era suficiente para assegurar que a respiração estava correta. Sua vida ativa estimulava os pulmões a trabalhar com a máxima eficiência, e sua tranquilidade estimulava a respiração correta ao invés de impor uma constante e artificial carga ao sistema respiratório, como faz o homem moderno. O medo, a competição e a raiva não permitem ao sistema respiratório trabalhar como deveria. Nós respiramos rápida e superficialmente porque isso está em sintonia com a rapidez e superficialidade de nossa vida moderna. O meio que nos cerca não nos induz à uma respiração correta. É por essa razão que as pessoas de hoje são obrigadas a reaprender a respirar de forma correta. Elas têm de aprender o que deveria ser algo inato e natural e para isso devem reativar seus reflexos nervosos a fim de que sua respiração se torne normal e harmônica com a vida e a natureza. Pense em quantas doenças são causadas ou, no mínimo, agravadas por uma respiração incorreta? Asma, bronquite, tuberculose e um grande número de enfermidades são indiretamente causadas pela privação de uma nutrição de oxigênio adequada ao nosso corpo.
Capacidades Respiratórias
Uma pessoa parada e razoavelmente relaxada é capaz de inalar e exalar aproximadamente meio litro de ar (isto é chamado volume tidal em fisiologia) de cada vez. Porém, se a mesma pessoa expandir seu peito e abdome ao máximo possível e assim introduzir mais ar nos pulmões, ele será capaz de absorver uma quantidade extra de dois litros. Esse volume extra de ar que pode ser inalado é chamado de volume de reserva inspiratória. Se após a expiração normal, o peito e o abdome forem contraídos ao máximo confortavelmente possível, então será possível expelir um litro e meio extras de ar dos pulmões, muito acima do meio litro normalmente exalado na respiração normal. Essa quantidade é chamada de volume de reserva expiratória. Há ainda algum ar que permanece nos pulmões mesmo depois da exalação mais profunda. Isso acontece porque os pulmões não podem nunca ser totalmente esvaziados. Isto é conhecido como volume residual e é da ordem de aproximadamente um litro e meio.
Então, comparemos o volume normal da respiração com o máximo que pode ser respirado:
½ litro (volume tidal) + 2 litros (reserva inspiratória) + 1 ½ litros (reserva expiratória) = 4 litros.
Isso nos dá um total de 4 litros, o qual é oito vezes o volume normal da inspiração e expiração.
A maioria das pessoas enquanto paradas, respiram menos de meio litro de ar e consequentemente seus pulmões usam menos de um oitavo de sua capacidade. É por essa razão que aprender a respirar corretamente é tão importante.
(A Systematic Course in the Ancient Tantric Techniques of Yoga and Kriya - Swami Satyananda Saraswati – tradução livre e adaptação de Ricardo Coelho)
VOCÊ SE LEMBRA DAQUELA TOCANTE HISTÓRIA DO LIVRO O PEQUENO Príncipe? Bom, existe uma história mais tocante ainda que aconteceu de fato com o criador do Pequeno Príncipe, o escritor francês Antoine de St. Exupéry. Poucas pessoas sabem que ele lutou na Guerra Civil Espanhola, quando foi capturado pelo inimigo e levado ao cárcere para ser executado no dia seguinte. Nervoso, ele procurou em sua bolsa um cigarro, e achou um, mas suas mãos estavam tremendo tanto que ele não podia nem mesmo levá-lo à boca. Procurou fósforos, mas não tinha, porque os soldados haviam tirado todos os fósforos de sua bolsa. Ele olhou então para o carcereiro e disse: "Por favor, usted tiene fósforo?". O carcereiro olhou para ele e chegou perto para acender seu cigarro. Naquela fração de segundo, seus olhos se encontraram, e St. Exupéry sorriu.
Depois ele disse que não sabia por que sorriu, mas pode ser que quando se chega perto de outro ser humano seja difícil não sorrir. Naquele instante, uma chama pulou no espaço entre o coração dos dois homens e gerou um sorriso no rosto do carcereiro também. Ele acendeu o cigarro de St. Exupéry e ficou perto, olhando diretamente em seus olhos, e continuou sorrindo. St. Exupéry também continuou sorrindo para ele, vendo-o agora como pessoa, e não como carcereiro.
Parece que o carcereiro também começou a olhar St. Exupéry como pessoa, porque lhe perguntou: "Você tem filhos?". "Sim", St. Exupéry respondeu, e tirou da bolsa fotos de seus filhos. O carcereiro mostrou fotos de seus filhos também, e contou todos os seus planos e esperanças para o futuro deles. Os olhos de St. Exupéry se encheram de lágrimas quando disse que não tinha mais planos, porque ele jamais os veria de novo. Os olhos do carcereiro se encheram de lágrimas também. E de repente, sem nenhuma palavra, ele abriu a cela e guiou St. Exupéry para fora do cárcere, através das sinuosas ruas, para fora da cidade, e o libertou. Sem nenhuma palavra, o carcereiro deu meia-volta e retornou por onde veio. St. Exupéry disse: "Minha vida foi salva por um sorriso do coração".
O que foi aquela "chama" que pulou entre o coração desses dois homens? Isso tem sido tema de intensa pesquisa atualmente, na medida em que os cientistas estão se dando conta de que o coração não é meramente uma bomba mecânica, mas um sofisticado sistema para receber e processar informações. De fato, o coração envia mais mensagens ao cérebro que o cérebro envia ao coração! Como disse o filósofo francês Blaise Pascal: "O coração tem razões que a própria razão desconhece".
BUDISMO E CULTURA DE PAZ - Lama Padma Samten fala sobre a noção de Mandala.
"A noção de mandala vem da compreensão de que construímos as realidades que nos circundam e que, quando construímos as realidades, nos construímos junto. Vemos que se trata de um processo inseparável, coemergente.
Ao construirmos mundos favoráveis e manifestações de sabedoria, nossa ação positiva se torna natural, desobstruída, compassiva e amorosa. A partir disso, o caminho espiritual com foco no controle das ações de corpo, fala e mente é substituído pela compreensão de que devemos observar e dirigir a forma pela qual nos construímos junto com os mundos. Construindo o mundo a partir da lucidez, teremos o corpo, a fala e a mente lúcidos.
Se construirmos o mundo a partir da ignorância, os impulsos de corpo, fala e mente surgirão dessa visão de mundo equivocada que desenvolvemos. Podemos ouvir as palavras de mestres espirituais e tentar seguir seus conselhos de como utilizar o corpo, a fala e a mente, mas tudo vai parecer muito artificial. Isso porque a sabedoria natural que estaremos usando vai brotar da compreensão que temos do mundo. Da compreensão equivocada de mundo não brota nada além de impulsos equivocados.
Mesmo cientes de que os mestres estão corretos, se não desenvolvermos a visão dos mestres, a nossa ação será contraditória e não veremos solução, nunca teremos descanso, estaremos sempre em conflito interno, nunca teremos um comportamento não-repressivo. Estaremos sempre fazendo esforços para seguir os conselhos dos mestres.
O aspecto do esforço é dramático. De tanto nos esforçarmos, um dia cansamos; quando chegamos nesse ponto, a queda é rápida, e dizemos: "Desisto. Se a espiritualidade fosse natural, eu andaria de forma naturalmente lúcida e válida. No entanto, tudo isso me parece artificial". Parece artificial porque precisamos de esforço constante, nunca encontramos um ponto de equilíbrio, precisamos constantemente relembrar o que ouvimos. De tanto esforço, terminamos desistindo."
Em minhas aulas freqüentemente recebo alunos com um olhar desconfiado, querendo saber que tipo exatamente de yoga eu ensino. Muitas das vezes sua desconfiança vem associada com informações recebidas pela mídia ou de pesquisas feitas na internet com a palavra “tantra”. O retorno de tais pesquisas é uma enxurrada de informações, em sua maioria ligadas ao que uma linha de praticantes do ocidente chama de “neo-tantrismo” e que prometem a liberação do prazer sexual através de várias técnicas orientais, algumas vezes com orientações e fotos bastante explícitas. Isto causa uma grande confusão na cabeça das pessoas e dá um grande trabalho tentar esclarecer do que realmente se está falando. Há uma enxurrada de equívocos sobre o que seja o tantrismo e eu gostaria de dar alguns esclarecimentos básicos sobre essa filosofia, que estarão longe de esgotar toda sua complexidade e riqueza, mas que são extremamente necessários e fundamentais para entendermos um pouco sobre essa fascinante filosofia ou 'tecnologia psico-espiritual', conforme prefere definir o pesquisador George Feuerstein.
Em primeiro lugar, o termo “neo-tantrismo” é um equívoco típico da prepotência ocidental, pois pressupõe que se pode criar algo melhor do que o que foi ensinado e aperfeiçoado durante milhares de anos em sua cultura original, na Índia. Em última instância, não existe o que chamamos de neo-tantrismo, ou pelo menos este neo-tantrismo não tem nada a ver com o tantrismo original. A não ser pela reprodução equivocada de algumas técnicas relativas à relação sexual, sem nenhuma filosofia ou objetivo definido. O grande atrativo que o dito “tantra do sexo” ocasiona nas mentes ocidentais decorre do fato da sexualidade não ser encarada como algo natural. A nossa aparente liberalidade sexual esconde uma sociedade que não consegue viver sua sexualidade de forma saudável.
Então, dito o que não é o Tantra, vamos tentar esclarecer, do começo, o que é o Tantra.
O Tantra, falando de forma bastante simples, é uma filosofia que surgiu na Índia há cerca de 5.000 anos (isso numa estimativa modesta), embora sua sistematização tenha ocorrido apenas a partir do séc. V de nossa era. É uma filosofia não-dual, que preconiza que em última instância há apenas a Unidade, coincindindo com a visão não dualista do Vedanta. Tendo como símbolo dessa Unidade a deidade conhecida como Shiva. Shiva representa a consciência sem forma que se manifesta no mundo na forma de Shakti (a criação, de princípio feminino) e assim cria o mundo manifesto. Shiva e Shakti, masculino e feminino integram-se e formam tudo o que existe. O objetivo da prática tântrica é fazer com que o indivíduo possa perceber que ele já é e sempre foi essa unidade. A tal felicidade que tanto buscamos já está aqui. Não há o que buscar, apenas há que reconhecer esta realidade.
Ou seja, quando conseguimos integrar o masculino – Shiva, com o feminino – Shakti, atingimos essa percepção. No caminho para atingir essa integração é que o tantra se desdobra em duas linhas diferentes, o dakshina marga e o vama marga, a via da mão direita e a via da mão esquerda, respectivamente. Embora ambos os caminhos tenham a mesma filosofia de base, diferem na maneira como seguem esse caminho.
No Dakshina Tantra entende-se que, tanto o homem como a mulher possuem os princípios masculino(Shiva) e feminino(Shakti) e são preconizadas várias práticas que buscam integrar esses dois princípios em cada ser individual.
Já no Vama Tantra há o entendimento que a energia masculina (Shiva) encontra-se principalmente no homem e a energia feminina encontra-se na mulher. Então, nesse caso, só há uma maneira de integrá-las: unindo homem e mulher através do ato sexual ritualizado, chamado de maithuna. Mas a coisa não é tão simples assim.
Ambas as filosofias compartilham grande parte de suas técnicas. Como o Dakshina Tantra já é conhecido bastante de muitos de nós, vamos nos concentrar no estudo do Vama Tantra, que causa tanta polêmica e dúvidas em todos.
Conforme Swami Satyananda Saraswati, um grande mestre tântrico moderno afirma:
“no Tantra, a prática de Maithuna1 é usualmente citada como sendo a forma mais simples de despertar a Sushumna nadi2, uma vez que ela recomenda uma prática (a relação sexual) com a qual a maioria das pessoas já estão acostumadas. Entretanto, francamente falando, muito poucos estão preparados para esse caminho. A relação sexual comum não é maithuna. O ato físico pode ser o mesmo, mas a estrutura que o antecede é totalmente diferente.”
Ao contrário do que possa parecer, ou do que é divulgado pela corrente “neo-tântrica”, o prazer físico não é o objetivo do vama tantra, nem mesmo é pré-requisito para o seu objetivo. Um dos objetivos principais do treinamento tântrico é o controle da ejaculação tanto no homem quanto na mulher. Voltemos às palavras de SwamiSatyananda:
“Outra coisa difícil no sadhana3 tântrico é o cultivo da atitude de indiferença. A pessoa tem de virtualmente tornar-se um brahmacharya4 para poder libertar a mente e as emoções dos pensamentos sexuais e paixões que normalmente surgem nesse momento. Ambos os parceiros devem estar absolutamente purificados e internamente controlados antes de praticar o maithuna. Isso é muito difícil de compreender para a pessoa comum, uma vez que para a maioria, a relação sexual é o resultado da paixão e da atração física ou emocional, tanto para a reprodução quanto para o prazer. Somente quando você está totalmente purificado é que essas prioridades instintivas estarão ausentes. Conforme a tradição, o dakshina marga deve ser praticado por muitos anos antes que se possa entrar no caminho do vama marga. Só então a relação do maithuna não ocorrerá para a gratificação física. O propósito é muito claro – despertar a sushumna , liberando a energia da kundalini do muladhara chakra, e expandindo as áreas inconscientes do cérebro.”
Mesmo na Índia, hoje em dia é difícil de encontrar mestres confiáveis nessa prática, que exige uma grande capacidade e força de vontade do buscador. Na verdade não conheço nenhuma referência de algum mestre nessa técnica nos dias atuais. Então, todos os pseudo-gurus que dizem poder ensinar o Tantra no Brasil, nos Estados Unidos ou na Europa, na verdade não estão ensinando o Tantra, mas sim técnicas isoladas para aumentar o prazer na relação sexual (nada contra!), que algumas vezes são de origem tântrica até, mas que encontram-se totalmente descontextualizadas e não podem ser chamadas de Tantra, uma vez que não compartilham com sua filosofia. Terminamos citando mais uma vez o mestre Satyananda:
“Caso você não tenha adquirido essa prática, você não estará apto a controlar a paixão e excitação porque você não tranquilizou seu cérebro. Esse caminho não é para ser usado indiscriminadamente como um pretexto para a auto-indulgência sexual. Ele é dirigido para sadakhas5 sérios e praticantes maduros, que estão evoluídos e que vêm praticando o sadhana para despertar a energia potencial e atingir o samadhi6. Esse caminho deve ser considerado como um veículo para o despertar, caso contrário ele poderá tornar-se um caminho para a queda no abismo.”
Baseado em texto de Swami Satyananda Saraswati (Kundalini Tantra – Yoga Publicatiosn Trust), por Ricardo Coelho
Notas de rodapé:
1 - Maithuna: relação sexual ritualizada.
2 - Sushumna nadi: canal central que corre na coluna vertebral, por onde deverá ascender a kundalini.
3 - Sadhana: caminho
4 - Brahmacharya: retirante, monge
5 - Sadaka: aquele que pratica o sadhana, buscador.
O cigarro que emagrece, faz bem para os dentes e acalma os nervos está em exposição na Biblioteca Pública de Nova York. Uma série de propagandas antigas de cigarro mostra os esforços usados pela indústria tabagista para exaltar supostos benefícios do fumo
Andres Vera
“Mais médicos fumam Camel do que qualquer outro cigarro”. A frase, que hoje faria tremer qualquer associação de medicina, está estampada num anúncio de cigarro da marca Camel criado em 1946. Houve um tempo em que o hábito de fumar, além de elegante, fazia bem à saúde. Essa era a pretensão de uma poderosa indústria tabagista que, em busca de consumidores, recrutou médicos, dentistas e até bebês a seu favor. “Puxa, mamãe, você realmente gosta dos seus Marlboros”, diz outro anúncio polêmico que estampa a foto de uma criança. Essas propagandas, criadas entre os anos 1927 e 1954, fazem parte de uma exposição organizada pela Biblioteca Pública de Nova York. Os anúncios, que circulavam em revistas como Life e Saturday Evening Post, são coloridos e criativos. A exposição ainda recorre a celebridades que emprestaram rosto e pulmões à indústria tabagista. O ator Ronald Reagan, o esportista Joe DiMaggio e até Papai Noel aparecem de cigarro em mãos.
As propagandas também poderiam ilustrar uma recente e polêmica descoberta de pesquisadores da Universidade da Califórnia e da Universidade Stanford. Em setembro, eles revelaram documentos secretos que mostram o verdadeiro tamanho dos interesses da indústria tabagista. Artistas como John Wayne, Henry Fonda e Bette Davis receberam milhares de dólares para promover marcas de cigarro durante a era dourada do cinema americano, nas décadas de 30 e 40. Só a empresa American Tobacco pagou o equivalente atual a US$ 3,2 milhões para ver a marca Lucky Strike nas telas de Hollywood. Entre os artistas mais bem pagos estavam Clark Gable, Gary Cooper e Joan Crawford. Cada um recebeu US$ 10 mil, o equivalente a US$ 100 mil atuais. A indústria tabagista não imaginava que acender um cigarro e sorrir como Clark Gable custaria um preço ainda maior à saúde das gerações que compraram a propaganda de Hollywood. Se o médico que defendeu as maravilhas de Camel não fosse apenas um figurante de publicidade, nenhuma tosse disfarçaria o constrangimento.
"Mais médicos fumam Camel do que qualquer outro cigarro" A marca Camel distribuiu maços de cigarro na entrada de convenções médicas no ano de 1946. Ao final do evento, um grupo de pesquisadores perguntava qual marca de cigarro os médicos levavam no bolso. A resposta não podia ser outra: eram os mesmos maços recebidos antes. A "estatística" virou anúncio.
"Como seu dentista, eu recomendo Viceroys" Enquanto as causas de câncer bucal eram lentamente associadas ao fumo, o cigarro Viceroys exibia dentistas defendendo a marca. De acordo com estatísticas da empresa, mais de 38 mil dentistas aprovavam Viceroys.
"Puxa, mamãe, você realmente gosta dos seus Marlboros" O uso de crianças na propaganda atingia principalmente o público feminino, e fazia parte dos esforços da indústria tabagista para ampliar a base de consumidores. Segundo a peça publicitária, o milagre dos cigarros Marlboro era não "empapuçar" seus usuários.
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O cigarro que emagrece, faz bem para os dentes e acalma os nervos está em exposição na Biblioteca Pública de Nova York. Uma série de propagandas antigas de cigarro mostra os esforços usados pela indústria tabagista para exaltar supostos benefícios do fumo
Andres Vera
"Encare os fatos! Quando a tentação da comida for demais, acenda um Lucky" O cigarro Lucky Strike criou uma série de propagandas com esportistas saudáveis superando uma espécie de sombra em má forma física. Corredores, tenistas e nadadores vendiam o estilo de vida da marca, que fazia questão de alertar em letras miúdas que seus cigarros não reduziam a gordura.
"20.679 médicos dizem que Lucky Strike irrita menos a garganta" O cigarro Lucky Strike se dizia capaz de proteger a garganta, e também buscou o apoio de pesquisas médicas. De acordo com a publicidade da marca, datada de 1930, mais de 20 mil médicos aprovavam Lucky Strike como sendo o menos “irritante” do mercado"como sendo o menos “irritante” do mercado.
"Mais cientistas e educadores fumam Kent com o novo filtro Micronite do que qualquer outro cigarro" O filtro do cigarro surgiu como um diferencial que impulsionou as vendas de marcas como Kent e Viceroys. No entanto, o filtro propagandeado pela Kent como solução protetora continha amianto, uma fibra mineral altamente cancerígena quando aspirada. Apenas 2% dos cigarros continham filtro na década de 50. Com o sucesso da suposta proteção, os cigarros com filtro passaram a ter 50% do mercado.
"Proteja-se contra a garganta arranhada. Curta o fumar suave" A indústria tabagista não hesitou em usar Papai Noel como garoto propaganda de cigarro, cigarrilhas e charutos. O bom velhinho apareceu em inúmeras peças publicitárias da marca Pall Mall nos anos 1950, exalando tanta fumaça quanto uma chaminé. Mas, ao contrário dos atletas saudáveis de Lucky Strike, Noel continuou gordinho
"A ciência descobriu - você pode comprovar. Chesterfield não deixa gosto ruim" Chesterfield explorou a credibilidade da ciência a ponto de criar ficção científica. De acordo com o estudo de 1951, feito por uma organização de pesquisa “bem conhecida”, o cigarro da marca era o único capaz de enfrentar o microscópio e provar que não deixava gosto ruim na boca - desde que o cientista não deixasse cair cinzas no que estava observando."A ciência descobriu - você pode comprovar. Chesterfield não deixa gosto ruim"
Não se engane, daqui a alguns anos estaremos fazendo exposições semelhantes sobre os atuais alimentos e outros produtos que "fazem bem à saúde" e achando engraçada a ingenuidade das pessoas do início do século XXI...
Continuando a série sobre técnicas de limpeza e purificação tântricas (krias), abaixo a descrição da técnica do Jala Neti.
Os Krias no Dakshina Tantra Yoga
O Dakshina Tantra Yoga apresenta uma série de práticas para a limpeza do corpo físico e sutil. Essas práticas são genericamente chamadas de Krias.
Algumas dessas técnicas mais sutis são aquelas que usamos previamente à pratica dos asanas numa típica aula de Dakshina Tantra Yoga, como o Kapalabhati, Padhadirasana, Agni Sara entre outros.
Outras atuam mais diretamente no corpo físico, ou sthula shariram (corpo grosso), limpando-o literalmente, como o Jala Neti, limpeza das vias respiratórias com água morna (usando o lota), o Sutra Neti, limpeza das vias respiratórias, usando um cordão encerado. O Vata Sara, limpeza do estômago com ar, o Shankprakshalana, limpeza estomacal com água, e o Kunjal Kria (ou Vaman Dhauti), limpeza do estômago por regurgitação, entre outras.
Abaixo apresentamos a descrição do Jala Neti, limpeza das vias respiratórias e no post anterior já havíamos descrito a técnica do Laghoo Prakshalana (limpeza intestinal simplificada).
Jala Neti
Preparação:
Um recipiente especial, o lota, é necessário para esta prática. O lota pode ser feito de plástico, metal, louça ou qualquer outro material que não contamine a água. O importante é que a ponta do bico do lota adeque-se confortavelmente à cavidade da narina, de forma a não deixar que a água vaze. A água deve estar na mesma temperatura do corpo e deve ser adicionada uma quantidade de sal na proporção de uma colher de chá por litro de água. A adição de sal assegura que a pressão osmótica da água seja igual à dos líquidos corporais, dessa forma minimizando qualquer irritação à membrana da mucosa nasal. Se for sentida alguma dor ou irritação durante a prática, significa que há excesso ou pouco sal na mistura. Como referência, o excesso de sal na mistura dá a sensação da irritação que sentimos quando entra água do mar nas nossas narinas e a quantidade de sal insuficiente causa a mesma sensação de irritação da água de piscina.
Lavagem das Narinas:
Você pode fazer essa prática no quintal de casa ou se não tiver espaço suficiente, faça no box do banheiro, onde poderá assoar o nariz à vontade.
Encha o lota com a mistura de água e sal amornada.
Fique de pé, com as pernas afastadas aproximadamente quatro palmos, distribuindo o peso do corpo por igual entre os pés. Feche os olhos e relaxe o corpo todo por alguns segundos antes de iniciar a prática.
Vire a cabeça para o lado e incline o corpo para frente, de sessenta a noventa graus.
Comece a respirar pela boca. Gentilmente insira o bico do lota na narina que ficou voltada para cima.É importante neste momento encaixar bem o bico do lota na narina para que não vaze de volta. Inspire normalmente pela boca e expire o mais lentamente que puder, deixando a água fluir. Não faça força, apenas incline o lota e deixe o peso da água fazer com que haja a circulação pelas narinas. O fluxo de ar pela garganta evitará que a água desça e fará com que naturalmente saia pela outra narina. Quando precisar inspirar novamente, interrompa o exercício, inspire e ao expirar volte a fazer a água fluir. Com alguma prática você poderá ser capaz de fazer a limpeza sem interromper para inspirar, mas no início, recomendo que evite, pois o esforço para inspirar pode fazer com que a água desça pela garganta. Para que o fluxo seja perfeito, é importante acertar a inclinação do tronco e da cabeça.
Quando chegar à metade do recipiente, retire o lota, traga a cabeça para o centro e deixe a água descer das narinas. Remova qualquer muco da narina assoando suavemente. Vire a cabeça para o lado oposto e repita o mesmo procedimento.
Depois de completar o processo, drene as narinas completamente.
Drenagem das Narinas:
Fique de pé e com o corpo ainda inclinado para a frente, assoe com vigor, mas sem forçar demais, virando a cabeça em todas as direções, para frente e para trás, direita e esquerda várias vezes até sentir que a água e o muco saíram quase completamente.
Para assegurar a secagem completa, faça um movimento parecido com a prática do nadi shodhana pranayama: tape a narina direita com o polegar e inspire pela esquerda, solte a narina direita, tape a esquerda e exale com certo vigor pela narina direita. Faça o mesmo no outro lado. Alterne algumas vezes esse movimento até que sinta que a água e o muco foram totalmente drenados das narinas.
Duração:
Esta prática dura aproximadamente 5 minutos. O Jala Neti pode ser praticado uma vez por dia ou como recomendado pelo terapeuta ou profissional de yoga. Para aliviar sintomas de gripes e resfriados, acúmulo de muco ou sinusite, pode ser feito até 3 vezes por dia.
Consciência:
Física – no relaxamento e posicionamento do corpo, tomando cuidado para que a água não vaze do bico do lota e na respiração lenta e relaxada pela boca, especialmente para iniciantes nesta prática.
Energética – no Ajna Chakra.
Horário da prática:
O Jala Neti deve ser praticado preferencialmente pela manhã, em jejum e antes da prática de asanas. Entretanto, se necessário, pode ser praticado em qualquer outro horário, exceto logo após as refeições.
Precauções:
A água deverá passar somente através do nariz. Se alguma água entrar pela garganta ou boca é uma indicação de que o posicionamento da cabeça está incorreto. Tenha certeza de que o nariz esteja devidamente drenado após a prática, caso contrário a mucosa nasal poderá ficar irritada e manifestar sintomas semelhantes ao do resfriado. Não assoe o nariz com excesso de força, pois a água remanescente pode ser empurrada para os ouvidos. Se necessário, relaxe em shashankasana por alguns minutos.
Contra-indicações:
Pessoas que possuam um bloqueio muito grande e crônico nas vias nasais não devem tentar a prática sem a consulta a um especialista. Se você tem grande dificuldade de fazer com que a água passe de uma narina a outra, por mais que tente, pode ser indício de um bloqueio estrutural na cavidade nasal e deve procurar um médico para que faça uma avaliação.
Benefícios:
O Jala Neti remove muco e poluição das cavidades nasais e sinus, permitindo que o ar flua sem obstruções. Isto ajuda a prevenir e tratar doenças do trato respiratório, tais como asma, pneumonia, bronquite e tuberculose. Ajuda a aliviar altergias, resfriados e sinusites, assim como várias desordens dos ouvidos, olhos e garganta, inclusive rinite alérgica, tonsilite, inflamações da adenóide e membranas mucosas. Respiração oral em crianças pode ser reduzida pela prática do Jala Neti.
Também alivia tensões nos músculos da face, tiques nervosos e ajuda o praticante a manter uma aparência fresca e jovial.
Jala Neti estimula as várias terminações nervosas do nariz, estimulando a atividade cerebral e a saúde integral do indivíduo. É conseguido um equilíbrio entre ambas as narinas e consequentemente entre os hemisférios direito e esquerdo do cérebro, induzindo um estado de harmonia corporal e equilíbrio dos sistemas circulatório e digestivo. Mais importante que tudo, entretanto, é que o Jala Neti ajuda no despertar do Ajna Chakra.
Nota:
Pode-se colocar uma gota de própolis ou de limão na água do lota, nos casos de resfriados ou sinusites mais renitentes.
Alimentação inadequada, correria, falta de tempo, estresse, todos esses fatores contribuem para que problemas digestivos e especialmente a constipação intestinal, a popular "prisão de ventre" venha se tornando uma queixa cada vez mais constante entre os que procuram a prática de yoga.
Como não poderia deixar de ser, o Yoga tem recursos bastante eficientes para esses problemas. Entre eles, o Shank Prakshalana, que constitui-se de um método de limpeza intestinal completa e o Laghoo Prakshalana, uma versão mais "light" da mesma prática. Nos posts a seguir, coloquei a descrição detalhada do segundo método, o Laghoo, que considero que pode ser feito por quase qualquer pessoa sem maiores dificuldades. A prática completa somente deve ser feita com o acompanhamento de um profissional de yoga qualificado. Leia o texto com bastante atenção e se quiser experimentar, coloquei um vídeo bem interessante que achei no youtube com os exercícios - está em russo (acho eu...), mas dá pra acompanhar com o texto. Alguns exercícios são feitos um pouquinho diferente do que faríamos no Dakshina Tantra, mas nesse caso não fará diferença. Em seguida, coloquei um texto da colega Denise H Bandeira, que fala sobre a importância dos intestinos para o bem estar do nosso organismo (onde você vai entender o porquê do título acima).
Preparação:recomendável fazer uma dieta líquida ou semi-líquida na noite anterior. Pratique pela manhã antes de beber ou comer qualquer Deixe disponível água limpa e morna (6 copos de 200ml aproximadamente). Adicione 2 colheres de chá de sal por litro à água de modo que fique levemente salgada.
Use roupas leves e confortáveis.
Prática:
1) Beba dois copos de água morna salgada o mais rápido que puder.
2) Faça os 5 (cinco) seguintes asanas dinamicamente, oito vezes cada e na sequência correta.
a) Tadasana
De pé, pés juntos, ou separados um palmo. Entrelace os dedos das mãos e volte as palmas para cima, apoiando-as no topo da cabeça. Fixe o olhar num ponto à sua frente um pouquinho acima do nível da sua cabeça. Inale e alongue os braços, ombros e peito para cima. Levante os calcanhares e fique na ponta dos pés. Alongue todo o corpo. Mantenha a posição com os pulmões cheios por alguns segundos. Baixe os calcanhares enquanto exala e traga as mãos de volta para o topo da cabeça. Isto é uma volta. Relaxe por alguns segundos e recomece.
b) Tiryaka Tadasana
De pé, pés separados dois palmos. Entrelace os dedos das mãos e volte as palmas para cima, apoiando-as no topo da cabeça. Fixe o olhar num ponto diretamente à sua frente. Inale e alongue os braços para cima. Exale e movimente o corpo lateralmente para o lado direito. Inale e volte ao centro. Exale e movimente para o lado esquerdo. Repita 8 vezes para cada lado.
c) Kati Chakrasana
De pé, pés separados dois palmos. Coloque os braços para a frente, na altura dos ombros, palmas voltadas para dentro. Exale e movimente o tronco para a direita, jogando o braço direito para trás e o braço esquerdo na direção do ombro direito. Acompanhe o movimento do braço direito com o olhar. Não movimente os quadris, apenas o tronco, da cintura para cima. Inale e volte ao centro, na posição inicial. Exale e faça o mesmo movimento para o lado esquerdo. Isto é uma volta. Faça oito voltas, dinamicamente e sempre alternando os lados.
d) Tiryaka Bhujangasana
Deitado de barriga para baixo, apoie-se nos braços esticados. Os pés podem estar juntos ou levemente separados. Procure deixar o corpo alinhado, sem levantar ou abaixar o quadril. Exale e torça o tronco para o lado direito ao mesmo tempo em que gira a cabeça e procura olhar para o pé direito. Inale e retorne ao centro. Exale e faça o mesmo para o lado esquerdo. Isto é uma volta. Faça oito voltas, dinamicamente e sempre alternando os lados.
e) Udarakarshanasana
Sentado de cócoras, pés separados, mãos nos joelhos. Exale e torça o tronco para o lado esquerdo empurre a coxa esquerda contra o lado direito do abdome e empurre o joelho direito para o chão. A cabeça gira e olha por cima do ombro esquerdo. Inale e volte à posição inicial no centro. Exale e faça o mesmo para o lado esquerdo. Isto é uma volta. Faça oito voltas, sempre alternando os lados. Esta é uma volta completa.
Não descanse entre as voltas.
3) Beba mais dois copos de água salgada e novamente faça os cinco asanas, oito vezes cada.
4) Repita o procedimento pela terceira e última vez.
Após a terceira volta, vá ao banheiro e veja se há qualquer movimento intestinal. Não force a evacuação e não preocupe-se; se não ocorrer na hora irá ocorrer mais tarde.
Duração: Separe uma hora para a prática.
Frequência:Uma vez por semana é suficiente para a maioria dos casos. Nos casos de constipação pode ser praticado diariamente até que haja melhora.
Descanso: Após completar a prática, descanse por 30 minutos antes de beber ou comer qualquer coisa.
Restrições: Não há restrições especiais de alimentação.
Precauções: Não tente forçar a evacuação, isso deve acontecer totalmente de forma natural.
Contra-indicações: Pessoas que sofram de qualquer enfermidade deverão consultar um profissional qualificado de yoga antes de tentar o Laghooprakshalana. Esta prática também deve ser evitada por gestantes.
Benefícios: Diferentemente do Shankprakshalana, método completo de limpeza intestinal, o Laghooprakshalana ou método simplificado objetiva apenas incrementar o funcionamento normal dos intestinos. É um método excelente e simples de estimulação da movimentação intestinal e ideal para aqueles que não podem fazer o método completo. Laghoo é altamente recomendado para aqueles que sofrem de desordens digestivas como constipação, flatulência, acidez, indigestão e outros males digestivos. Ajuda a prevenir infecções urinárias e a formação de cálculos renais, além de ser usada em muitas técnicas terapêuticas de yoga.
Notas: Grandes benefícios podem ser obtidos se combinarmos esta prática com alimentação leve ou dietas. Medicações podem continuar sendo tomadas sem problemas.
Traduzido e adaptado do livro 'Asana Pranayama Mudra Bandha', de Swami Satyananda Saraswati, por Ricardo Coelho
A importância dos Intestinos para o Bem Estar do Organismo
Relação Intestino e Cérebro
A ciência e as pesquisas médicas têm demonstrado através de estudos recentes a importância do sistema gastrointestinal e mais especificamente do intestino, para a manutenção da saúde e do bem estar. O intestino passou a ser reconhecido como um ''órgão inteligente'' por sua capacidade de selecionar entre o que comemos, o que nos é ou não útil, e por ser o único órgão do corpo humano capaz de executar funções independentemente do Sistema Nervoso Central, chegando a ser recentemente denominado por especialistas como um ''segundo cérebro''.
As principais funções do intestino grosso.
eliminação das fezes; reabsorção de água e nutrientes; contribui com o sistema imunológico (80%). Em termos de células como por exemplo, de linfócitos, o sistema imunológico do intestino é o mais importante do organismo e produz certas substâncias que regulam as reações imunológicas.hospeda a flora microbiana que exerce várias funções importantes. Essas bactérias digerem uma parte da celulose, sintetizam vitaminas (complexo B e K); e destroem micróbios e bactérias patogênicas. Limitar o papel do intestino à digestão seria reduzir consideravelmente a importância desse órgão. Ele é dotado de um sistema nervoso constituído por 100 milhões de neurônios (tanto quanto a medula espinhal), que elaboram cerca de vinte neurotransmissores, entre os quais a serotonina, reguladora do humor, que influi nos distúrbios depressivos. Os cientistas falam hoje do intestino como o "segundo cérebro" do corpo humano, capaz de enviar sinais ao cérebro.
Intestinos e defesa imunológica:
Na parede intestinal encontra-se cerca de 80 % do nosso potencial imunológico, como também o hormônio de crescimento que combate os sintomas do envelhecimento.
Relação do intestino com a alegria:
Cerca de 90% da serotonina (que é o neurotransmissor responsável pela a alegria) é produzido no intestino. A serotonina está baixa em pessoas com depressão, demonstrando a importância do bom funcionamento intestinal nestas pessoas.
A prisão de ventre também tem influencia no humor das pessoas, como podemos perceber, com o uso da palavra "Enfezada" (cheia de fezes), referindo-se a pessoas com mau-humor.
Importância da limpeza intestinal do Yoga chamada Shank Prakshalana
No Gheranda Samhita, um dos textos de Hatha Yoga, são recomendadas seis limpezas corporais chamadas Sat Karmas, e entre elas está o Shank Prakshalana, ou limpeza de todo o aparelho digestivo incluindo os intestinos. Essa limpeza deve ser realizada de 1 a 2 vezes ao ano, de preferência na entrada da primavera e outono. Existe uma forma curta, Laghoo Shank Prakshalana, que pode ser realizado 1 vez por semana, e em casos de constipação diariamente até a normalização do intestino. A vantagem dessas limpezas é a recuperação do movimento peristáltico dos intestinos, sem os efeitos danosos que os laxantes (uso diário) causam, irritando a mucosa intestinal e ocasionando paralisia intestinal e a síndrome do intestino irritável. Na técnica do Laghoo e do Shank Prakshalana a pessoa, ainda em jejum, bebe água morna e salgada e faz uma seqüência de 5 exercícios que conduzem a água desde o estômago até o ânus. Essa prática do Yoga faz com que o material aderido, por vezes, dezenas de anos seja removido das paredes intestinais.
Porque limpar os intestinos?
Os intestinos são constituídos de válvulas coniventes (ondulações semelhantes a um leque), vilosidades (projeções semelhantes a finos dedos) e microvilosidades (semelhante a borda-em–escova, 1000 microvilosidades) que aumentam mil vezes a área de absorção da mucosa intestinal (área total de 250m2), mas esta combinação de pregas, projeções e microvilosidades também constituem áreas de aderência do bolo fecal, e diferente do que pensamos, não são limpadas automaticamente. A aderência do bolo fecal nas paredes dos intestinos com o conseqüente ressecamento e o acumulo de gases e muco acaba impedindo o movimento natural dos intestinos.
Efeitos da prática:
Frescura do hálito, sono tranqüilo e transpiração inodora;
Dissipa a constipação intestinal;
Alivia a indigestão, gases e acidez estomacal;
Remove o excesso de muco aliviando a asma, sinusite, alergias e resfriado;
Alivia o sintomas de artrite e doenças inflamatórias;
Fortalece o sistema imunológico;
Ajuda na assimilação correta do alimento e combate a obesidade (ver acima hormônios secretados)
Ajuda no rejuvenescimento, limpa a pele e da brilho e vitalidade aos cabelos e pele;
Ajuda a combater enxaquecas, fadiga crônica, stress, celulite e outros males advindos da intoxicação intestinal;
Auxilia na cura da fibromialgia, psoríase;
É utilizado na cura da diabete, hipoglicemia, obesidade e colesterol elevado;
Estimula o fígado e glândulas anexas do tubo digestivo;
Ajuda valiosa no combate a depressão, melhora o humor e o estado mental;
Os efeitos psíquicos são muitos e ligados aos chakras Muladhara e Svadhisthana.
Muladhara: ajuda a pessoa a desapegar-se e lidar melhor com os medos e perdas.
Svadhisthana: ajuda a trabalhar a repressão sexual e combate doenças e irregularidades do aparelho de reprodução e urinário (infecção, pedras nos rins..);
É uma técnica de prevenção ao câncer intestinal;
Ajuda valiosa na cura da síndrome do cólon irritável e colites.
Estimula o peristaltismo intestinal (movimento de contração do intestino);
Expulsão de vermes e parasitas indesejáveis;
Ajuda a curar Infecção parasitária;
No cólon intestinal existem áreas reflexas que ao ser estimuladas produzem melhoras nos casos de enxaquecas, amigdalites, cistites...
Vejam a notícia que saiu no O Globo do dia 22, domingo. Pelo jeito eles sofrem dos mesmos problemas da globalização que nós. E em alguns aspectos até estamos um pouco melhores. Isso , infelizmente mostra, que embora berço do yoga, a Índia perdeu bastante o contato com suas tradições.
Baba Ramdev é convocado pelo governo, preocupado com estresse e consumo crescente de fast-food, cigarro e bebida
Florência Costa Correspondente O Globo, O Mundo, página 42, em 22/06/2008.
NOVA DÉLHI. Baba Ramdev, o mais badalado guru da ioga no mundo, é a mais poderosa arma do governo indiano na guerra contra a fast-food, o álcool e o cigarro. Os vícios conquistaram a classe média indiana (cerca de 350 milhões de pessoas) a partir da liberalização da economia nos anos 90.
Hoje há uma verdadeira epidemia de obesidade, doenças cardíacas, diabetes, entre outras doenças. Segundo o Centro de Estudos de Saúde de Bangalore, até 2010 cerca de 60% dos pacientes com problemas cardíacos do mundo estarão concentrados na Índia.
Doenças relacionadas ao cigarro tiram a vida de 1 milhão de indianos por ano, no país onde 120 milhões de pessoas são fumantes.
Com um cenário tão preocupante, o governo decidiu pedir socorro ao chamado “messias da ioga”. Ele promete, através de seus métodos, uma vida saudável, sem estresse ou doenças.
O acordo foi selado na casa do ministro da Saúde, Anbumani Ramadoss. Os dois vão trabalhar para propagar a ioga.
— A Índia tem um quarto da população infantil mundial. Se essas crianças continuarem comendo fast-food e refrigerante vai ser devastador para o futuro do país, com número recorde de doenças — explicou o ministro, que quer fazer o governo obrigar escolas públicas e privadas a dar aulas de ioga.
Apoio contra o fumo em Bollywood Com o apoio do guru, o ministro da Saúde ganhou aliado poderoso contra estrelas de Bollywood que costumam aparecer fumando nas telas.
Estudo de 2005 mostra que se antigamente apenas vilões fumavam nas telas, hoje, em 70% dos filmes, heróis e mocinhas usam cigarros para mostrar que são independentes e glamourosos.
A milenar ioga já está começando a fazer a cabeça de soldados do Exército indiano e policiais de algumas cidades, que já estão se submetendo ao tratamento de Baba Ramdev para perder peso e ganhar resistência.
Apesar de ter nascido na Índia, a ioga não fazia parte do dia-a-dia dos indianos até a década de 80, trazida de volta pelos ocidentais após a onda hippie dos anos 70.
Mas só recentemente a ioga começou a se fortalecer novamente do país, e de forma intensa.
— A Índia pode se tornar uma potência mundial através da ioga.
A revolução vai começar pela ioga — costuma dizer Baba Ramdev, que treinará cem mil professores para atuar em 600 mil vilarejos rurais, onde está concentrada 70% da população.
A aliança entre Baba Ramdev e o ministro Ramadoss chamou atenção. Os dois tiveram recentemente um bate-boca devido às polêmicas afirmações do guru, que também propaga a medicina alternativa indiana ayurveda (com remédios a base de ervas).
O nó da briga são as pregações de Baba Ramdev contra a medicina, e as polêmicas afirmações de que a ioga pode curar um imenso leque de doenças, de acne até câncer e AIDS.
Baba Ramdev é uma figura polêmica e costuma comprar brigas. Uma parlamentar comunista chegou a acusar sua empresa, de manipulação de remédios ayurvédicos, de usar ossos humanos como ingredientes e também testículos de animais em remédios contra impotência.
Mas a acusação não foi comprovada.
Hoje, o ministro é só elogios ao guru: — Ramdev está fazendo um fantástico trabalho de propaganda e está cientificamente comprovado que a ioga faz bem para a saúde.
O guru indiano já está de olho na vizinha China como novo território para estender seus centros de ioga: —ioga não é religião. Não há melhor alternativa à espiritualidade para um país comunista do que a ioga — justificou o pragmático guru.
A popularização do yoga1 no ocidente e sua absorção pela mídia e grandes corporações é algo até certo ponto natural e inevitável, mas podemos tentar prevenir algumas deformações que podem parecer não causar maiores consequências, especialmente se não conhecemos a fundo os princípios da disciplina. Funciona como aquela brincadeira infantil do telefone sem fio. A cada nova retransmissão, pode-se deformar ou mesmo perder o conhecimento original. Aqui no Brasil temos a tendência natural de absorver o conhecimento com a intermediação dos centros predominantes cultural e economicamente no mundo. Não estou procurando fazer aqui um libelo anti-imperialista, mas devemos tomar cuidado com o aprendizado de algumas disciplinas, oriundas de culturas que até há relativamente pouco tempo atrás eram pouco acessíveis, tais como, por exemplo, a acupuntura, o budismo e especialmente no nosso caso, o yoga, que tem origem na hoje já não tão longinqua e nem tão inacessível Índia. Por que absorver o conhecimento ancestral indiano com a intermediação de outra cultura, quando pudermos, na medida do possível, buscá-lo diretamente na fonte?
No Brasil, felizmente, a prática e o ensinamento do yoga não é algo novo, e podemos dizer que já possui alguma tradição, graças ao esforço pioneiro desde a década de 1960 de mestres como Hermógenes, Caio Miranda e outros menos conhecidos mas tão importantes quanto. Claro que, com a popularização da busca pelo conhecimento oriental, naturalmente grandes mestres indianos começaram a divulgar seu conhecimento a partir da metrópole americana, principalmente. O que me preocupa é que tenho visto ultimamente alguns jovens buscadores brasileiros procurando seu referencial nos Estados Unidos e exibindo seus currículos de cursos feitos com “grandes mestres americanos”. Alguns talvez sejam, não estou aqui para questionar isso, mas devemos estar atentos para não receber informações deformadas por ignorância, adaptação cultural ou mesmo por interesses econômicos. Precisamos analisar o conhecimento a nós transmitido com equilíbrio e certo espírito crítico.
Para explicar melhor, tentarei descrever um exemplo real de como a desinformação pode gerar deformações graves no aprendizado da disciplina. Mais do que aprender as implicações fisiológicas e discorrer sobre os efeitos das posturas de yoga sobre a musculatura, ossos e articulações, como vem predominando no ensino popular do hatha yoga e outras modalidades, é necessário conhecer e preservar os conceitos fundamentais da prática, caso contrário poderemos, inocentemente, alterar um pequeno detalhe que aparentemente não fará diferença alguma, mas que pode comprometer toda a estrutura do conhecimento, transformando o yoga numa prática de ginástica de alongamento simplesmente ou ainda em algo próximo da ginástica desportiva.
É preciso ressaltar que não basta imitar fisicamente os movimentos do yoga. Yoga não é ginástica, que é da alçada dos colegas profissionais de Educação Física. Um professor de Yoga não é professor de educação física nem deve pretender sê-lo, embora nada impeça que um professor desta disciplina, com o aprendizado devido, possa vir a ser professor de yoga. Yoga também não é medicina, nem mesmo alternativa, embora possa ser usada para melhorar a saúde do indivíduo, trazendo grandes benefícios terapêuticos. Deixemos a medicina para os médicos. Yoga também não é psicoterapia, embora esteja intimamente ligada ao equilíbrio da psique humana e possa ser usada como ferramenta de apoio a qualquer terapia psicológica tradicional. Não é religião, embora seja ancorada numa tradição ancestral de espiritualidade, e possa ser usada como ferramenta de crescimento espiritual, independentemente da formação cultural-religiosa do indivíduo.
Enfim, o yoga não é nada disso, mas é um pouco de tudo isso. Georg Feuerstein2 definiu-a muito bem como sendo uma “Tecnologia Psicoespiritual”, ou seja, “uma sabedoria e um conhecimento aplicados ao serviço do destino evolutivo superior da humanidade através do estímulo à maturação psicoespiritual do indivíduo”. De forma mais simplista, poderíamos definir o yoga como um caminho. Um caminho estruturado para o autoconhecimento e evolução do ser humano.
Foto 1 - Parivritta Janu Shirshasana
Mas, vamos ao exemplo prático – por que não fazer yoga de tênis? Vejamos a postura da foto como exemplo: Chama-se, em sânscrito, Parivritta Janu Shirshasana, que significa “postura torcida da cabeça em direção ao joelho”. Vejamos o que diz o livretinho3, editado por uma empresa fabricante de artigos esportivos e distribuído num grande evento de yoga, na descrição da postura – atenção especial às indicações:
“Como fazer: sente-se em Dandásana (coluna ereta, pernas unidas e estendidas à frente do corpo, tornozelos internos juntos, mãos ao lado dos quadris). Com a mão direita, puxe o joelho interno direito para o lado direito, flexionando-o para fora. Flexione o tronco na direção da perna esquerda e aproxime da coxa anterior esquerda a cintura do lado esquerdo.
Indicações: Desenvolve os tornozelos e fortalece os músculos das pernas, costas e abdômen. Abre o peito e refina a postura natural da praticante. Previne cãibras nos músculos gêmeos (panturrilhas).
Contra-indicações: hérnia de disco.”
A postura supracitada é uma variação, com torção, da postura abaixo, Janu Shirshasana, cujos benefícios terapêuticos são descritos da seguinte forma pelo renomado Mestre indiano B. K. S. Iyengar4:
Foto 2 - Janu Shirshasana
Em sânscrito, janu é “joelho” e sirsa é “cabeça”. A prática dessa postura exerce um impacto dinâmico sobre o corpo e traz muitos benefícios. Alonga a parte anterior da coluna e reduz os enrijecimentos dos músculos das pernas e das articulações dos quadris. Aumenta a flexibilidade de todas as articulações dos braços, desde os ombros até os dedos. Flexões como Janu Sirsasana recondicionam o lobo frontal e o coração. Tonifica os órgãos abdominais. Estabiliza a pressão sanguínea. Corrige gradualmente desvios de coluna e ombros encurvados.”
Como podemos perceber, ambas as descrições são bastante detalhadas e dão ênfase aos benefícios fisiológicos da postura, bem ao gosto ocidental. Atenção ao detalhe da perna esquerda dobrada. Em ambas o calcanhar toca o períneo, localizado entre o ânus e o sexo. Por acaso? O que não é explicado, mesmo na perfeita e detalhada descrição do grande Mestre Iyengar, é que há um aspecto energético sutil nesta postura na qual é dada ênfase à energização de determinados chakras (centros energéticos sutis). Segundo o ponto de vista do Dakshina Tantra Yoga, neste caso, além do manipura chakra, localizado na altura do umbigo, há ênfase na energização do muladhara chakra, cujo ponto de localização é exatamente no períneo, ao ser pressionado pelo calcanhar.
Ambos os exercícios também preparam o aluno para um estágio mais avançado da prática, através da postura descrita abaixo, que rigorosamente não será considerada mais um asana (postura) e sim um Mudrá5, conhecido no Tantra como Maha Mudra (a Mudrá de Grande Importância), descrita pelo Professor Paulo Murilo Rosas6 da seguinte forma:
Foto 3 - Maha Mudra
“Aspectos fisiológicos: Tonifica e fortifica os órgãos abdominais, os rins e as glândulas supra-renais. Cura indigestão, dispepsia e prisão de ventre. Segundo o Sr. Iyengar, os homens se beneficiam com esta postura, desde que a pratiquem persistentemente. Também as mulheres que têm prolapso uterino encontram um grande alívio com esta postura, porque ela ajuda a repor o órgão no lugar.
Aspectos psicológicos: A pressão do calcanhar – primeiro o esquerdo, depois o direito – na região do períneo excita a energia do Muladhara Chakra e bloqueia a passagem do Prana ora por Idá, ora por Pingalá, dando ênfase à energização pela Sushumna Nadi. (...) A energização de todos os Chakras na raiz é muito importante dentro do ponto de vista Tântrico, pois somente com esta energização é que poderemos vivenciar a plenitude das características da nossa personalidade.”
Aqui, na descrição tântrica, sem deixar de descrever os aspectos fisiológicos, há enfase na descrição dos efeitos energéticos sutis da postura.
Traduzindo de forma simples, há a necessidade do calcanhar tocar e pressionar o períneo de forma a fechar um circuito energético corporal, além de exercer uma pressão no ponto (quem estiver mais familiarizado com os conceitos de pontos de acupuntura, da medicina chinesa, pode fazer uma analogia aproximada).
Embora, do ponto de vista estritamente físico não seja nenhum grande pecado fazer a postura com o acréscimo de um tênis (da marca dos nossos patrocinadores...), do ponto de vista do yoga é um erro gravíssimo colocar uma estrutura isolante de borracha entre os pontos de contato corporais. Se você fizer essa postura com o tênis, ainda conseguirá a maioria dos benefícios físicos superficiais, mas não poderá mais chamar a isso de yoga. Será, no máximo, mais um exercício de alongamento, inspirado no yoga. Esse é apenas um pequeno exemplo de como, a longo prazo, a ignorância conceitual de uma disciplina profunda e complexa pode gerar problemas como esse e talvez outros mais graves.
Atentemos para mais um detalhe, de modo a não sermos enganados pelas aparências: Qual das ilustrações acima apresenta a postura mais avançada? Se você respondeu número três, acertou. Embora aparentemente as outras fotos apresentem posturas que exigem maior flexibilidade, no MahaMudra, além do calcanhar no períneo, o praticante faz JalandharaBandha7e Mula Bandha, com retenção da respiração com o pulmão cheio, seguido de Uddhyana Bandha, com retenção com o pulmão vazio. É uma prática somente recomendada para alunos bastante avançados, dada sua dificuldade e o grande aporte energético. Portanto, não se deixe impressionar por imagens de pessoas fazendo posturas que exigem flexibilidade fora do normal ou grande força física. Isso não habilita uma pessoa necessariamente como um praticante avançado.
Se posso oferecer um conselho aos colegas professores e aos praticantes é: Não invente! Os mestres indianos levaram alguns milhares de anos criando e depurando uma prática que aproxima-se da perfeição. Não podemos colocar nossa pretensão e soberba cultural acima disso. Procure seguir a tradição da melhor maneira que puder, sem tentar “melhorar” o yoga. Não invente novas modalidades de yoga exóticas com nomes impactantes para fazer marketing ou com seu próprio nome para alimentar o ego. Faça do yoga uma maneira de tornar as pessoas melhores e consequentemente tornar o mundo melhor. Ainda está em tempo e os Grandes Mestres agradecem. Afinal, para isso o Yoga foi criado.
Ricardo Coelho
1Estou grafando neste texto a palavra “yoga” no gênero masculino (o yoga) e em itálico, como seria em sânscrito, sua língua de origem. Nada contra o termo aportuguesado “ioga”, que nesse caso seria no gênero feminino (a ioga). Também grafei os termos em sânscrito, de forma o mais fonética possível, para evitar deformações na pronúncia, outro item que vem sendo influenciado pela intermediação da tradução do sânscrito para o inglês antes de ser traduzido para o português.
2Livro: A Tradição do Yoga , pags 28, 29 – Ed. Pensamento
3Livreto: Guia Play Yoga – distribuído aos participantes do evento “Play Yoga” - São Paulo, abril de 2008.
4Livro: Iyengar Yoga – posturas principais, pags 94 a 97 - Ed. Cores e Letras
5 Mudras são gestos que servem para imobilizar o Prana (energia sutil) em determinadas regiões.
Recentemente recebi um email com um convite para um mega-evento em São Paulo patrocinado pela multinacional de artigos esportivos Adidas. Até aí, tudo perfeitamente normal, nada de novo. Mas o detalhe é que o evento não era de futebol, basquete ou ginástica olímpica, era sobre yoga!
Isso me deixou encafifado e curioso. Dei uma olhada no site que era indicado no email e vi que o negócio era sério, com grande produção e visita de grandes mestras internacionais (segundo os patrocinadores...), e o que é melhor, com a módica quantia de 65 reais de inscrição, ainda levava de brinde um “mat” e uma camiseta da Adidas (além de um lanchinho)! Comentei com a Marcia, minha esposa e ela disse: por que não vamos? Deve ser divertido e ainda passeamos em São Paulo!
Então, fizemos as malas e fomos ao tal evento, cheios de curiosidade e expectativa – não que esperasse um grande aprendizado com as mestras da adidas – mas seria uma experiência interessante (e ainda ganhava uma camiseta de fibra de bambu!). Na verdade todo o evento era direcionado para o lançamento da linha para prática de yoga da empresa, só para as meninas, incluindo tapetinho (me recuso a chamar de “mat”) e, pasmem, tênis! A apresentadora do evento era a Virgínia Novick, aquela que ficou famosa fazendo o comercial das lojas Marisa (os muito jovens não devem lembrar...), e a grande estrela do dia era a americana Raimbeau Mars, embaixadora mundial da adidas, que, segundo os organizadores, desenvolveu uma nova modalidade de yoga: a “adidas yoga”. Não é brincadeira, o nome é esse mesmo.
A moça entrou no palco com toda a pompa de estrela e no local deviam ter umas 300 pessoas ou mais (não sou muito bom nessas contas, mas dá pra ter uma idéia nas fotos que coloquei no fotoblog http://bhadrajaya.nafoto.net/ ), falou umas frases de efeito sobre os benefícios do yoga, passou um vídeo no telão com grandes estrelas do esporte mundial praticando yoga, e começou sua apresentação à qual os presentes tentavam acompanhar – confesso que a moça realmente é uma atleta e faz as posturas com perfeição, além de ser bastante bela (apenas uma coincidência, claro, pois esse não foi o critério de escolha da adidas!). Tentei até acompanhar, mas era difícil prestar atenção e fazer as posturas ao mesmo tempo, visto que ela mudava muito rapidamente de uma para outra. Um detalhe sobre o perfil do público: a maioria absoluta era feminino, claro, mas havia mais homens do que eu esperava, e digamos que 80% estava na faixa dos 18 aos 30 anos. Muitas conseguiam acompanhar bem as posturas (difíceis!), mas grande parte apenas tentava e torcia o corpo e a coluna de forma bastante perigosa. Não tive paciência de ficar até o fim dessa aula, e fui passear um pouco pelo evento, o que me fez perder a aula da embaixadora nacional da adidas, Lily Hastings, mas ainda assisti e dessa vez acompanhei até o fim a aula da, acho que mexicana, Ana Paula Dominguez (também bonitinha e jovem) de “kundalini yoga”. Essa foi interessante e tinha muitos elementos semelhantes ao tantra, mas fiquei na dúvida se a professora sabia o que estava ensinando... essa é mais perigosa ainda que a ioga atlética, pois trabalha diretamente com a energia sutil (deu pra sentir) e se for aplicada irresponsavelmente pode fazer mais mal que bem.
Também experimentei uma atividade num stand auto-intitulada de “yoga gravitacional”, uma espécie de yoga kuruntha com alta tecnologia (veja o fotoblog). Não era ioga, mas era divertido ficar de cabeça pra baixo e poderia ser uma técnica auxiliar para preparação – mas o custo dos equipamentos é muito alto para professores financeiramente prejudicados, como eu (quem sabe com o patrocínio da adidas...).
Dito isso, qual o saldo do evento? Foi bom para perceber que o yoga definitivamente está virando um grande negócio e essa tendência é irreversível. Não adianta espernear, pois as grandes corporações já descobriram o filão. Mas isso é ruim? Não acho que seja, pois aquelas pessoas podiam estar roubando, estar matando, estar fumando cocaína e cheirando maconha, mas estão fazendo yoga! Brincadeirinha... a idéia de escrever esse texto era para fazer uma reflexão séria sobre os rumos do yoga, mas não consigo deixar de achar engraçado. A verdade é que cada um trabalha no seu nicho e a popularização do yoga, embora traga em si toda uma gama de problemas e deformações, também pode ter seu lado positivo. Importante é que os profissionais sérios e que buscam preservar a tradição continuem fazendo seu trabalho, independentemente das tempestades que ocorrem no mundo lá fora. As pessoas prontas para fazer um trabalho sério e preparadas irão aparecer e procurar esses profissionais mais cedo ou mais tarde. O que não podemos é pensar que fazendo um trabalho sofisticado e profundo iremos atingir grandes camadas da população – a massa, mesmo que seja de uma elite econômica – essa é objeto de cobiça das grandes corporações, que sabem lidar com isso melhor do que nós. Entendo que, por exemplo, de um grupo de mil pessoas que estejam acompanhando um evento como esse, 20 ou 30 talvez um dia percebam que aquela ioga é legal, mas lhe falta alguma coisa, e acabarão por procurar um caminho maior de aprofundamento. Aqui vou fazer uma afirmação polêmica: o yoga de verdade não é para as massas, tanto aqui como sempre foi na Índia, sua terra natal. Muitos amigos que já visitaram a Índia pensando encontrar as pessoas praticando ioga em cada esquina, e academias em cada rua, ficaram surpresos e decepcionados ao não encontrar nada disso, ao constatar que a maior parte dos indianos não pratica yoga. O Yoga é para poucos, isso se considerarmos o yoga como fonte de crescimento espiritual e evolução pessoal. Por esse entendimento, essa divulgação massificada do yoga pode ser uma coisa boa para a saúde das pessoas, desde que seja ensinada com seriedade. É importante que apenas continuemos nossa militância de tentar aprender e ensinar o yoga mais próximo possível de sua tradição original, para que ela não se perca nesse processo e para que os que um dia a procurem tenham onde achar.
Uma interessante e divertida animação - bem adequada para os tempos atuais em que o yoga vem sendo desvirtuado pela compulsão por competir e pretensão de nossa cultura ocidental.
O Yoga Nidra é uma técnica de meditação de
origem tântrica, adaptada para o ocidente pelo mestre iogue Swami Satyananda.
Seu principal objetivo é, através de várias técnicas de relaxamento,
concentração e meditação, atingir níveis profundos do subconsciente e
inconsciente, buscando integrá-los à sua personalidade. Para esse
fim cada meditação tem a duração de 45 a 60 minutos, em um total de 5
a 10 práticas sequenciais, de níveis crescentes de aprofundamento. Veja
abaixo um texto em que Swami Satyananda dá uma pequena introdução sobre o
assunto e explica porque resolveu desenvolver esta poderosa técnica.
Yoga Nidra por Swami
Sathyananda
(tradução livre do livro Yoga Nidra de Swami
Sathyananda)
Introdução:
O
Yoga
Nidra, o qual é originado dos
Tantras, é uma poderosa técnica
na qual você aprende a relaxar conscientemente. Em Yoga Nidra, o sono não é
considerado como relaxamento. As pessoas em geral pensam que estão relaxando
quando se esparramam num confortável sofá com um copo de café, uma bebida ou um
cigarro e lêem o jornal ou assistem televisão. Porém, isso nunca será
considerada uma definição científica de relaxamento. Isto são apenas distrações
sensoriais. O verdadeiro relaxamento é, na verdade, uma experiência bastante
distante dessa idéia. Para um completo relaxamento você deve permanecer atento.
Isto é Yoga Nidra, o estado de sono dinâmico.
Yoga Nidra é um método sistemático
para a indução de um completo relaxamento físico, mental e emocional. O termo
Yoga
Nidra é derivado das palavras
em sânscrito yoga, que significa união ou
consciência unificada, e nidra, que significa sono.
Durante a prática de Yoga
Nidra, a pessoa aparenta
estar adormecida, mas a consciência permanece funcionando em um nível mais
profundo de atenção. Nesse estado limítrofe entre o sono e a vigília, o contato
entre as dimensões subconsciente e inconsciente ocorre espontaneamente.
Em
Yoga
Nidra, o estado de
relaxamento é alcançado pela introspecção, afastando-se das experiências
externas. Se a consciência puder ser separada do estado desperto exterior e do
sono, isto se torna muito poderoso e pode ser aplicado de muitas maneiras, por
exemplo, para desenvolver a memória, incrementar o conhecimento e criatividade,
ou transformar a natureza da pessoa.
No
Raja Yoga de Patanjali existe um estado chamado de Pratyahara, no qual a mente e a
consciência são dissociados dos canais sensoriais. Yoga Nidra é um aspecto de
Pratyahara que alcança os mais
altos estados de concentração e samadhi1.
O Nascimento do Yoga
Nidra
Aproximadamente 35 anos atrás, quando vivia com meu guru,
Swami
Shivananda, em
Rishikesh, tive uma
importantíssima experiência que despertou o meu interesse em desenvolver o
conhecimento do Yoga
Nidra. Eu havia sido indicado
para cuidar de uma escola de Sânscrito onde meninos aprendiam a cantar os Vedas.
Era meu trabalho permanecer acordado a noite toda para vigiar a escola enquanto
o Acharya2
estava fora. Às tres da madrugada eu costumava cair em sono profundo, e às seis
eu poderia levantar e retornar ao ashram3.
Nesse ínterim, os meninos já tinham levantado, tomado banho e cantado suas
orações em sânscrito, mas eu nunca os ouvi.
Algum tempo depois, meu ashram estava promovendo um
grande evento, e os meninos dessa escola de sânscrito foram trazidos para cantar
os mantras védicos. Durante a apresentação, eles recitaram certos
slokas4 que
eu não conhecia, mas alguma coisa me dizia que eu já os tinha ouvido. Eu estava
totalmente certo que nunca os tinha lido ou escrito, apesar de me soarem tão
familiares.
Finalmente, decidi perguntar ao guru dos meninos, que estava sentado
próximo a mim, se ele poderia explicar o significado daquilo. O que ele me
respondeu mudou totalmente minha visão de mundo. Ele disse que essa sensação de
familiaridade não era de todo surpreendente, porque meu corpo sutil permanecia
ouvindo os meninos cantando os mesmos mantras todas as vezes que eu
estava dormindo naquela escola. Isso era uma sensacional revelação para mim. Eu
havia aprendido que o conhecimento é transmitido diretamente através dos
sentidos, mas por essa experiencia eu percebi que também se pode obter
conhecimento direto sem nenhum meio sensorial. Assim foi o nascimento do
YogaNidra.
A
partir dessa experiência, outras idéias e insights chegaram a minha mente.
Percebi que o sono não é um estado de total inconsciência. Quando a pessoa está
adormecida, permanece um estado remanescente de potencialidade, uma forma de
consciencia que é desperta e totalmente alerta para os eventos exteriores. Eu
descobri, pelo treinamento da mente, que é possivel utilizar positivamente esse
estado.
(...)
1Estado último de identificação com o Absoluto,
“iluminação”.
Veja abaixo um vídeo com a primeira meditação (de
uma série de 10) do Yoga Nidra. A meditação dura cerca de 45 minutos. Para
preparar-se você deve deitar-se no chão em shavasana, costas no chão,
pernas afastadas, braços ao longo do corpo e ligeiramente afastados, com as
palmas das mãos voltadas para cima.
“O principal ato de vontade não é o esforço, mas o consentimento... Tentar obter as coisas pela força de vontade é reforçar o falso eu... Mas à medida que a vontade sobe a escada da liberdade interior, sua atividade torna-se cada vez mais um consentimento para a aproximação de Deus, para o influxo da Graça.”
Budismos Hinayana, Mahayana e Vajrayana, segundo Ken Wilber
(texto transcrito do livro “Graça e Coragem” de Ken Wilber, tradução de Ary Raynsford, onde ele descreve sua experiência pessoal em um retiro de meditação budista com o Mestre Kalu Rinpoche, em 1986)
“O Budismo Tibetano divide o caminho espiritual global em três grandes estágios (cada um deles com vários subestágios): o Hinayana, o Mahayana e o Vajrayana.
O Hinayana é a prática fundacional, a prática essencial e básica encontrada em todas as escolas do Budismo. Central nesse estágio é a prática do vipassana, ou meditação de insight.
No vipassana, a pessoa simplesmente se senta numa posição confortável, e presta uma “atenção simples” a qualquer coisa que surja, externa ou internamente, sem julgá-la, condená-la, seguí-la, evitá-la ou desejá-la.
Você simplesmente testemunha a experiência imparcialmente e depois a libera. O objetivo dessa prática é verificar que o ego separado não é uma entidade real e significativa, mas apenas uma série de sensações passageiras e impermanentes como qualquer outra coisa. Quando se percebe quão “vazio” é o ego, cessam a identificação, a defesa e a preocupação com ele, e assim nos liberamos da infelicidade e sofrimento crônicos por defender algo que não existe. Como explicado por Wei Wu Wei:
“Por que você é infeliz?
Porque 99,9% do que você pensa,
e tudo que você faz,
é para seu ego,
e não existe nenhum.”
Por mais profunda que seja essa prática, ela não é completa, porque ainda existe um dualismo sutil contido na consciência pura da Testemunha. Há muitas maneiras técnicas para explicar isso, mas a mais simples é: o nível do Hinayana tem por meta a iluminação individual, mas negligencia a iluminação dos outros. E isso não mostra que existe um traço de ego que sobrou: pense no seu e esqueça o dos outros?
Assim, enquanto o ensinamento do Hinayana ressalta a iluminação individual, a doutrina do Mahayana dá um passo adiante e destaca a iluminação de todos os seres. Desse modo, ela é, acima de tudo, o caminho da compaixão, e não somente sob o aspecto teórico; existem práticas reais para desenvolver a compaixão na mente e no coração.
A mais notável dessa práticas é a conhecida por tonglen, que significa “absorver e enviar”. Após a pessoa ter desenvolvido de forma consistente a prática fundamental do vipassana, parte-se para a prática do tonglen. Por ser tão poderosa e transformadora, essa prática foi mantida em segredo até recentemente no Tibete. A prática é a seguinte:
Durante a meditação, conceba ou visualize alguém, que você conhece e ama, que esteja passando por muito sofrimento – doença, perda, depressão, dor, ansiedade, medo. Na inspiração, imagine que o sofrimento da pessoa – sob a forma de nuvens escuras negras, enfumaçadas, alcatroadas, espessas e pesadas – entra pelas suas narinas e aloja-se no seu coração. Prenda a respiração, absorvendo Todo esse sofrimento no coração. Em seguida, na expiração, vivencie paz, liberdade, saúde, bondade e virtude, e as envie para a pessoa sob a forma de luz curativa e libertadora. Imagine que ela absorva isso tudo e sinta-se completamente livre, liberada e feliz. Repita o procedimento por diversas respirações. A Seguir, imagine a cidade em que a pessoa mora e na inspiração absorva o sofrimento da cidade; na expiração, envie sua saúde e felicidade para todos que vivem lá. Repita a prática para o estado, o país, o planeta, o universo. Você está absorvendo o sofrimento dos seres de toda parte e enviando de volta saúde, felicidade e virtude.
Quando as pessoas são apresentadas pela primeira vez a essa prática, suas reações são normalmente fortes, viscerais e negativas. As minhas foram. Absorver aquele piche preto? Você está brincando? E se eu ficar doente? Isto é loucura, muito perigoso! Quando Kalu Rimpoche nos deu as instruções do tonglen, a prática que ocupou o período intermediário do retiro, uma mulher, entre as cerca de cem pessoas do público, levantou-se e expressou o que praticamente Todo mundo estava pensando:
“Mas e se eu fizer isso com alguém que estiver realmente doente e contrair eu mesma a doença?”
Sem hesitar, Kalu respondeu: “Vc deve pensar: oh, que bom!, está funcionando!”
Ele pôs o dedo na ferida. Pegou-nos a todos. “budistas sem ego”, com nosso ego exposto. Nós praticaríamos para atingir nossa própria iluminação, reduzir nosso próprio sofrimento, mas absorver o sofrimento dos outros, mesmo que apenas na imaginação? Nem pensar.
O tonglen foi projetado exatamente para acabar com a autopreocupação, autopromoção e autodefesa egóicas. Ele troca o eu pelo outro e, desse modo, atinge profundamente o dualismo sujeito/objeto. Ele nos incentiva a enfraquecer o dualismo eu/outro exatamente no ponto em que temos mais medo: ferir a nós mesmos. Não simplesmente falar em sentir compaixão pelo sofrimento dos outros, mas estar disposto a absorvê-lo em nosso coração e libertá-los dele. Esta é a autêntica compaixão, o caminho do Mahayana. De uma certa forma, é o equivalente budista do que Cristo fez: dispor-se a assumir os pecados do mundo para, em seguida, transformá-los (e nos transformar).
O ponto é bastante simples: para o verdadeiro Eu, ou Eu único, o eu e o outro podem ser facilmente permutados; já que ambos são iguais, não fazem nenhuma diferença para o Eu único. Reciprocamente, se não conseguimos permutar o eu pelo outro é porque estamos fechados para consciência do Eu único, impedidos de acessar a pura consciência não dual. Nossa resistência em assumir o sofrimento alheio nos aprisiona em nosso próprio sofrimento, sem saída, porque nos fecha em nosso eu, ponto.
Começa a acontecer uma coisa estranha quando se pratica o tonglen por algum tempo. Em primeiro lugar, ninguém fica doente. Não tenho conhecimento de nenhum caso legítimo em que alguém ficou doente por causa do tonglen, embora muitos de nós usemos esse medo como desculpa para não praticá-lo. Ao contrário, você pára de recuar em face do sofrimento, tanto seu quanto dos outros. Você pára de fugir da dor e, ao contrário, descobre que pode transformá-la simplesmente estando disposto a assumí-la, para, em seguida, liberá-la. Acontecem mudanças reais, apenas pela vontade de eliminar suas tendências protetoras do ego. Você começa a aliviar a tensão eu/outro, percebendo que existe apenas um Eu que sente todas as dores e desfruta de todas as alegrias. Por que sentir inveja dos outros, quando há apenas um Eu que se deleita com o sucesso? É por isso que o lado “positivo” do tonglen é expresso na afirmação: eu me regozijo com o mérito dos outros; ele também é meu na consciência não-dual. Desenvolve-se uma grande “consciencia de igualdade”, que, por um lado, extermina o orgulho e a arrogância e, por outro, o medo e a inveja.
Quando se estabelece o caminho da compaixão do Mahayana, quando a permutabilidade do eu e do outro é realizada, pelo menos até certo ponto, então se está pronto para o caminho do Vajrayana. O Vajrayana é baseado em um princípio inflexível: só existe o Espírito. À medida que se extingue a dualidade sujeito/objeto em todas as suas formas, fica cada vez mais óbvio que todas as coisas, transcendentes ou mundanas, sagradas ou profanas, são, completa e igualmente, manifestações ou ornamentos perfeitos do Espírito, da Mente de Buda. Reconhece-se o universo manifesto inteiro como um jogo da própria consciência, vazia, luminosa, clara, radiante, desobstruída, espontânea. Aprende-se a não buscar tanto a consciência, mas encantar-se com ela, brincar com ela, já que existe somente ela. O Vajrayana é o caminho de vibrar com a consciência, com a energia, com a luminosidade, refletindo a sabedoria perene de que o universo é um jogo do Divino e você e todos os seres sencientes são o Divino.
O caminho doVajrayana apresenta três divisões principais. Na primeira (os tantras exteriores), você visualiza a Divindade à frente ou em cima da sua cabeça e imagina a energia e luz curativa banhando você, conferindo-lhe bençãos e sabedoria. Esse, claro, é o nível psíquico, nível seis, onde se estabelece pela primeira vez uma comunhão com a Divindade.
Na segunda divisão (os tantras interiores mais baixos), você se visualiza como a Divindade e repete certas sílabas ou mantras que representam a fala divina. Esse é o nível sutil, nível sete, o nível do estabelecimento da união com a Divindade.
E, finalmente, na terceira divisão (os tantras interiores mais elevados, mahamudra e maha-ati), dissolve-se tanto o eu quanto a Divindade no puro vazio não-manifesto, o nível causal da derradeira identidade. Nesse ponto, a prática não mais envolve visualização, recitação de mantras ou concentração, mas sim a realização de que sua própria consciência, da forma como é, está sempre iluminada a cada momento. Desde que todas a coisas já são o Espírito, não existe nenhum modo de alcançar o Espírito. Há apenas o Espírito em todas a direções, e aí simplesmente nos mantemos na natureza espontânea da mente propriamente dita, abraçando sem esforço tudo que surge como ornamentos da nossa própria experiência primordial. O não-manifesto e o manifesto, o vazio e a forma, unem-se no puro jogo não-dual da consciência – geralmente considerado como o estado supremo, mas que não é nenhum estado em particular.”
Mexendo nos meus alfarrábios encontrei esse recorte de jornal com uma tira do
genial Laerte (http://www.laerte.com.br/), que mostra com
seu humor sutil, como tentamos buscar nossa espiritualidade de forma equivocada.
Nada mais tântrico: não adianta buscar seu Deus do lado de fora. Ele
já está aqui e você já é a felicidade que busca!
Interessante o texto abaixo, publicado no Estado de São Paulo - a medicina começa a engatinhar no conhecimento da meditação. Embora a "ciência" ainda carregue uma visão apenas mecanicista do processo, o que é até certo ponto natural, serve para que mais pessoas percam o preconceito e possam experimentar por si só os efeitos benéficos da meditação na sua mente e no seu corpo.
MEDITAÇÃO NOS POSTOS DE SAÚDE E HOSPITAIS
"Em fevereiro, a agência do governo dos EUA responsável pelas pesquisas médicas (NIH, na sigla em inglês) reconheceu formalmente a meditação como prática terapêutica que pode ser associada à medicina convencional. Em maio, o Ministério da Saúde brasileiro baixou uma portaria em que incentiva postos de saúde e hospitais públicos a oferecer a meditação em todo o País.
Essas ações governamentais são sinais da tendência de encarar a meditação não simplesmente como prática de bem-estar, que faz bem apenas à mente e ao espírito. Parar diariamente alguns minutos para se concentrar e se desligar do turbilhão de pensamentos que ocupam constantemente a cabeça também ajuda a manter a saúde física.
"A meditação é diferente da medicina convencional porque quem cuida de você não é o médico. É você mesmo!", explica a médica anestesista Kátia Silva, que coordena as atividades de meditação no Hospital Municipal Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo. Na cidade, 70% dos postos de saúde oferecem atividades da chamada medicina tradicional, que inclui acupuntura, tai chi chuan e meditação.
Relativamente recentes, as pesquisas começaram nos anos 70. Uma pesquisa com a palavra meditação no acervo on line da Biblioteca Nacional de Medicina do governo americano, traz 1.400 estudos científicos .
Entre outros benefícios, meditar previne e combate a depressão, a hipertensão arterial, a dor crônica, a insônia, a ansiedade e os sintomas da síndrome pré-menstrual, além de ajudar a reduzir a dependência de drogas. Esses estudos mostram que a meditação reduz o metabolismo: os batimentos cardíacos e a respiração ficam mais lentos e o consumo de oxigênio pelas células cai. É isso que dá a sensação de relaxamento e tranqüilidade.
As mesmas pesquisas sugerem que a prática também interfere no funcionamento do sistema nervoso autônomo, que é responsável, por exemplo, pela liberação dos hormônios noradrenalina e cortisol durante os momentos de stress. Em quem medita, a duração dessas "reações de alarme" são mais curtas. Dessa forma, a pressão do sangue e a força de contração do coração ficam alteradas por pouco tempo, comprometendo menos a saúde.
Apesar de serem evidentes os benefícios, a ciência ainda não consegue entender completamente como a meditação age no sistema nervoso. "Uma das dificuldades é o fato de não serem possíveis testes com modelos animais", explica a bióloga Elisa Kozasa, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Segundo especialistas, mudanças podem ser sentidas logo nas primeiras semanas. A aposentada Maria Elza Lima dos Santos, de 60 anos, descobriu a meditação no Hospital Vila Nova Cachoeirinha. Ela vivia com crises de pressão alta, que passaram após quatro meses de práticas diárias. "Antes eu era muito nervosa. A cabeça estava sempre cheia de problemas. Aí a pressão subia. Agora fico mais relaxada, sinto Paz de espírito.", conta ela, explicando que no princípio teve dificuldades com a técnica. "Levei um mês para aprender a me concentrar."
*Na Trilha da Acupuntura*
O obstetra Roberto Cardoso, autor de Medicina e Meditação - Um Médico Ensina a Meditar (MG Editores, 136 págs, R$ 26), diz que muitos profissionais de saúde ainda têm preconceitos. "Mas isso deve mudar. A meditação começa a trilhar os passos da acupuntura, que já é um recurso reconhecido pela classe médica."
No Brasil, a instituição que mais estuda o tema é a escola médica da Unifesp, o que, segundo especialistas, ajuda a apagar a imagem religiosa e mística que normalmente se tem dos meditadores. A meditação não precisa ser necessariamente ligada a uma crença oriental.
Para que a meditação cumpra seu papel de medicina complementar e preventiva, o psicólogo José Roberto Leite, da Unifesp, explica que ela deve ser diária e constante. "É como comer ou fazer exercícios. Não basta uma semana para que você se mantenha saudável."
“Os Asanas são posições específicas do corpo que abrem os canais de energia e centros psíquicos. Eles são ferramentas para elevar a consciência e prover uma fundação estável para nossa auto-exploração do corpo, respiração, mente e espírito. Os hatha yogues também entendem que desenvolvendo o controle do corpo com o asana, a mente também será controlada.”
Swami Satyananda Saraswati
Atividades físicas e saúde.
Os benefícios proporcionados pelas atividades físicas e pelo esporte já se tornaram lugar comum e uma unanimidade entre os profissionais de saúde. Mas como o yoga, ou o Tantra Yoga especificamente pode se relacionar com isso? Qual o objetivo do movimento ou da atividade física no yoga? De pronto podemos afirmar que um dos resultados mais diretos da prática do yoga, o aprimoramento das capacidades físico-anatômicas, não é o objetivo precípuo desta prática, e sim um meio ou um caminho para que seja atingida sua verdadeira meta. Ter um corpo saudável, bonito e flexível não é um fim em si para o yoga. Embora desejável e necessário o incremento das capacidades físicas do corpo é um dos passos para que seja alcançado o equilíbrio da personalidade, objetivo específico da prática tântrica. Afinal, como sabemos, o corpo e a mente não são entidades separadas. Assim, quando atuamos no corpo, atuamos simultaneamente na mente (aí incluídas as emoções e o subconsciente) e vice-versa.
O Movimento no Yoga
Poderíamos afirmar, de forma sintética, que a prática tântrica visa o equilíbrio da personalidade através da perfeição e harmonia do movimento. Visto através da perspectiva tântrica, a perfeição do movimento é obtida não através da repetição de um modelo perfeito de postura, ou do extrapolamento dos limites corporais, como podemos observar em revistas e livros do gênero, o que nos leva a pensar: nunca vou conseguir fazer isso! Não estamos falando aqui de exibições circenses ou mesmo de ginástica olímpica ou rítmica, belos esportes, onde o aspecto estético, para ser visto de fora, é o que mais importa. Na prática tântrica a única competição é contra os nossos próprios limites pessoais, contra nossos eventuais bloqueios físicos, emocionais e psicológicos. Há a busca da superação de si mesmo a cada momento e não da imitação de um modelo estético exterior predeterminado. Cada indivíduo é convidado a conhecer profundamente seu corpo, suas limitações e aprender a superá-las pouco a pouco, sem ansiedade, pois não é possível pular etapas. Devemos vivenciar cada estágio evolutivo da prática pessoal em sua plenitude.
Yoga, Movimento, Harmonia e Perfeição.(continuação)
Movimento sem movimento?
Outra peculiaridade do movimento no yoga é que existem movimentos estáticos nos quais é alcançada uma postura (ou asana, em sânscrito) onde se permanece algum tempo imóvel. Embora aparentemente estática à primeira vista, a postura é precedida de um processo de “montagem” que é tão importante quanto o seu resultado final. Cada estágio do movimento que direciona para formação do asana, prepara o corpo para que sua posição final se torne completa e perfeita. A pose ou postura final funciona, dessa forma, como a coroação de uma série de movimentos harmônicos e perfeitos efetuados preliminarmente. E então, quando se chega ao asana proposto, embora o corpo esteja aparentemente imóvel, um grande fluxo interno de movimentos está acontecendo. Seu corpo procura manter-se em equilíbrio, direcionando sua atenção e energia para determinadas partes do corpo. Sua mente precisa permanecer focada para que você comece a perceber quais músculos e tendões estão sendo exigidos e você começará a perceber que apenas algumas partes do corpo precisam fazer força enquanto outras devem permanecer relaxadas. E quando, num estágio posterior, consegue-se permanecer confortável na postura, começa-se a entrar em contato com os efeitos do asana em toda sua plenitude, percebendo esse turbilhão de movimentos internos que ocorrem nos níveis físico, energético e psicológico.
Através do movimento perfeito e harmônico do corpo é induzido um estado em que o fluxo energético corporal alcança um equilíbrio dinâmico entre corpo, emoção, mente e espírito, harmonizando as duas faces da dualidade: o aspecto masculino, simbolizado por Shiva, e o aspecto feminino, simbolizado por Shakti. Assim, conecta-se o sol com a lua, o lado direito com o lado esquerdo, a ação e a comunhão, ou como afirma Georg Feuerstein:
“Na terminologia hindu (tântrica), o amor perfeito é o que se dá entre Shiva e Shakti, entre o aspecto tranqüilo e imóvel do Todo (concebido como masculino) e seu aspecto dinâmico (concebido como feminino). O Deus Shiva e a Deusa Shakti entregam-se eternamente um ao outro num abraço beatífico. Ou seja, o Absoluto ou Realidade Divina é o seu próprio sacrifício: é Ser e Vir-a-Ser, Estado e Processo.”
Quando conseguimos atingir este Amor Perfeito, caminhamos rumo à Unidade e percebemos que já somos e sempre fomos aquela felicidade que tanto buscávamos.
“Na tradição do Yoga, o estudo é considerado uma importante forma de autoconhecimento. Para o yogin , o estudo é sempre uma jornada de descoberta, compreensão e transcendência de si mesmo. É um aspecto essencial da orientação pragmática do Yoga. (...) O Yoga sempre foi uma disciplina experimental e profundamente baseada na experiência concreta, e o estudo é um dos aspectos dessa abordagem sólida.”
"Quando um homem contempla os objetos, nasce o apego a eles. Do apego nasce o desejo [de mais contato com os objetos] e do desejo nasce a ira [quando o mesmo desejo é frustrado]. Da ira nasce a confusão, da confusão o colapso da memória; do colapso da memória, a perda da sabedoria (buddhi); com a perda da sabedoria, [ele] perece.
“Um homem vai a um sábio e lhe pergunta, como não podia deixar de ser, qual é o significado da vida. O sábio faz um breve sumário da visão vedanta, ou seja, que o mundo inteiro não é nada, a não ser Brahma ou um Deus. E mais, que a própria consciência presente é uma com Brahman. O verdadeiro Eu está em uma identidade suprema com Deus. Como Brahma cria tudo, e como o Eu mais elevado é uno com Brahma, então o Eu mais elevado tudo cria. E lá se foi o homem, convencido de que tinha entendido o verdadeiro significado da vida, ou seja, que o Eu mais profundo é realmente Deus e cria toda a realidade. No caminho de casa, ele decide testar essa idéia maravilhosa. À frente dele vem um indivíduo cavalgando um elefante. O homem pára no meio da estrada, convencido de que, se ele é Deus, o elefante não pode machucá-lo. O indivíduo que cavalgava o elefante começou a gritar: “Saia da frente! Saia da frente!” o homem, porém, nem se moveu – e foi atropelado pelo elefante. Mancando, o homem voltou então ao sábio, e explicou que, como o Brahma ou Deus é tudo, e como o seu Eu é uno com Deus, o elefante não deveria tê-lo machucado. “É claro que Deus é tudo”, disse o sábio, “então, por que você não ouviu quando ele lhe disse para sair do caminho?”. (extraído do livro Uma Breve História do Universo de Ken Wilber - Ed. Nova Era).
Há três métodos de tentar traduzir o Absoluto em linguagem não absoluta, ou traduzir o Infinito em linguagem finita, ou ainda traduzir Deus pelo homem.
No método Analógico, tentamos traduzir o Absoluto, dando-lhe imagens positivas, tais como Onipotente, Onisciente, o que tudo vê, etc. No método Negativo, tenta-se traduzir o Absoluto pelo que ele não é, ou seja, não é isto, não é aquilo, considerando que qualquer coisa que tentarmos dizer que é o Absoluto poderá ser negada. Qualquer tentativa será vã. Mas o método que estamos mais interessados é o método Injuntivo e tentaremos desenvolver uma metáfora para explicá-lo melhor. Considere que você possui um amigo que está distante e que é músico. Ele, depois de muitos anos isolado num lugar ermo, conseguiu produzir a obra-prima da sua vida e quer compartilhá-la. Como ele irá descrever para você a música que fez, considerando que não pode mostrá-la pessoalmente (digamos que neste lugar ermo ele só pode comunicar-se por carta - esqueça a internet e outras facilidades, senão a metáfora vai por água abaixo)? Como descrever por palavras a sensação de uma música? É impossível não? Então o que seu amigo faz? Traduz ou transcreve a música numa "receita", o código das cifras musicais, e te envia pelo correio. Basta você reproduzir a seqüência original, passo a passo e você terá a música e conhecerá a obra-prima. Basicamente esse é o princípio do método injuntivo. Nele, não se tenta definir o conhecimento em linguagem, mas transmite-se as instruções que terão que ser reproduzidas por cada pessoa para que conheça. Porém, a historinha não acabou. E se você não sabe tocar um instrumento? Como reproduzir a música? Ou se você até sabe, mas é um músico medíocre? Poderá até reproduzir a música, mas não conseguirá perceber a profundidade e a beleza da obra-prima do seu amigo. O que fazer então? Como todo bom músico sabe, o grande segredo é praticar com disciplina. Repetir, repetir, repetir, e em cada repetição você perceberá que está ficando melhor e está percebendo coisas novas, nuances que era incapaz de perceber nas vezes anteriores. Continuando sempre, talvez um dia você venha a perceber toda a beleza da obra. Assim funciona esse terceiro método. É o método ensinado pelos Grandes Mestres espirituais do Oriente e do Ocidente. É o mais difícil, mas talvez seja o único em que podemos ter uma experiência legítima da dimensão divina. Cedo descobrimos que esse método exige trabalho, muito trabalho e disciplina. Depois de algum tempo, tem-se a impressão de que, quanto mais nos aperfeiçoamos no instrumento e mais maravilhas descobrimos, em contrapartida mais percebemos o pouco que sabemos e o quanto há ainda a aprender. Esse é o trabalho de uma vida e devemos confessar que não sabemos se vamos chegar à sua conclusão. Mas devemos continuar tentando. Essa talvez seja a grande missão do ser humano, mas você só vai descobrir se experimentar!
Anotações sobre o Livro – Tantra – Sexualidade e Espiritualidade de Georg Feuerstein (Origens): Tantra ou tantrismo, é uma tradição esotérica excepcionalmente ramificada e complexa, de origem indiana. Fez sua aparição por volta do ano 500 da Era Cristã, embora alguns de seus proponentes aleguem uma história muito mais longa. Idéias e práticas tântricas podem de fato ser encontradas em tradições e ensinamentos de uma era muito anterior. Entendido como um movimento em plena maturidade ou estilo cultural que se estende tanto sobre o budismo quanto sobre o hinduísmo, o Tantra, porém, parece ter se originado por volta do ano 1000 d.C., na escola filosófica de Abhinava Gupta. (Má fama): ... dentro da congregação do hinduísmo, o Tantra se tornou mal-afamado por causa das práticas antinômicas radicais de alguns dos seus iniciados. Durante a colonização vitoriana da Índia, o puritanismo levou os praticantes do Tantra à clandestinidade. Hoje, a cultura tântrica sobrevive principalmente nos moldes conservadores da tradição Shri-Vidyã do sul da Índia e da tradição budista tibetana. O Vajrayãna tibetano, em particular, tornou-se cada vez mais popular no Ocidente e é relativamente fácil receber iniciação e instrução nesta forma de Tantra. (O Tantra no Ocidente) O Tantra sempre se apoiou tanto no hinduísmo quanto no budismo, e os ensinamentos ao estilo tântrico podem ser encontrados até mesmo nas minorias religiosas da Índia, como o jainismo. O Tantra hindu, que um tanto arbitrariamente chamarei de Tantra Yoga para distingui-lo das variedades budista e jainista, foi introduzido no mundo ocidental através dos escritos de Sir John Woodroffe em 1913, pela tradução do Mahãnirvãna-Tantra. ... Mesmo hoje, contudo, o Tantra Yoga hindu é parcamente pesquisado, e a maior parte de seus ensinamentos mais elevados, que exigem experiência direta ou pelo menos as explicações de um iniciado, permanecem em aberto. (Neotrantrismo) A escassez de pesquisa e publicações sobre a herança tântrica do hinduísmo cedeu lugar, nos últimos anos, a uma safra completa de livros populares mal-informados sobre o que chamei de neotantrismo. Sua condenação vai tão longe que um verdadeiro iniciado mal reconheceria a herança tântrica nessas obras. A distorção mais comum é apresentar o Tantra Yoga como uma mera disciplina do sexo ritualizado ou sagrado. Na mentalidade popular, o Tantra se tornou equivalente a sexo. Nada poderia estar mais longe da verdade! ... O erro principal dessas publicações neotântricas é confundir o êxtase tântrico com o prazer comum do orgasmo.... Estas publicações podem ajudar as pessoas a procurar uma vida sexual mais gratificante ou divertida, mas na maioria dos casos se encontram bem distantes do verdadeiro espírito do Tantra. Neste sentido, são deploravelmente mal direcionadas, pois, em vez de despertar o impulso de se alcançar a iluminação em benefício de todos os seres, elas tendem a estimular o narcisismo, a auto-ilusão e as falsas esperanças.