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"O Tantra segundo Georg Feuerstein"
Autor: Georg Feuerstein
Quando: 2005
Anotações sobre o Livro – Tantra – Sexualidade e Espiritualidade de Georg Feuerstein (Origens): Tantra ou tantrismo, é uma tradição esotérica excepcionalmente ramificada e complexa, de origem indiana. Fez sua aparição por volta do ano 500 da Era Cristã, embora alguns de seus proponentes aleguem uma história muito mais longa. Idéias e práticas tântricas podem de fato ser encontradas em tradições e ensinamentos de uma era muito anterior. Entendido como um movimento em plena maturidade ou estilo cultural que se estende tanto sobre o budismo quanto sobre o hinduísmo, o Tantra, porém, parece ter se originado por volta do ano 1000 d.C., na escola filosófica de Abhinava Gupta. (Má fama): ... dentro da congregação do hinduísmo, o Tantra se tornou mal-afamado por causa das práticas antinômicas radicais de alguns dos seus iniciados. Durante a colonização vitoriana da Índia, o puritanismo levou os praticantes do Tantra à clandestinidade. Hoje, a cultura tântrica sobrevive principalmente nos moldes conservadores da tradição Shri-Vidyã do sul da Índia e da tradição budista tibetana. O Vajrayãna tibetano, em particular, tornou-se cada vez mais popular no Ocidente e é relativamente fácil receber iniciação e instrução nesta forma de Tantra. (O Tantra no Ocidente) O Tantra sempre se apoiou tanto no hinduísmo quanto no budismo, e os ensinamentos ao estilo tântrico podem ser encontrados até mesmo nas minorias religiosas da Índia, como o jainismo. O Tantra hindu, que um tanto arbitrariamente chamarei de Tantra Yoga para distingui-lo das variedades budista e jainista, foi introduzido no mundo ocidental através dos escritos de Sir John Woodroffe em 1913, pela tradução do Mahãnirvãna-Tantra. ... Mesmo hoje, contudo, o Tantra Yoga hindu é parcamente pesquisado, e a maior parte de seus ensinamentos mais elevados, que exigem experiência direta ou pelo menos as explicações de um iniciado, permanecem em aberto. (Neotrantrismo) A escassez de pesquisa e publicações sobre a herança tântrica do hinduísmo cedeu lugar, nos últimos anos, a uma safra completa de livros populares mal-informados sobre o que chamei de neotantrismo. Sua condenação vai tão longe que um verdadeiro iniciado mal reconheceria a herança tântrica nessas obras. A distorção mais comum é apresentar o Tantra Yoga como uma mera disciplina do sexo ritualizado ou sagrado. Na mentalidade popular, o Tantra se tornou equivalente a sexo. Nada poderia estar mais longe da verdade! ... O erro principal dessas publicações neotântricas é confundir o êxtase tântrico com o prazer comum do orgasmo.... Estas publicações podem ajudar as pessoas a procurar uma vida sexual mais gratificante ou divertida, mas na maioria dos casos se encontram bem distantes do verdadeiro espírito do Tantra. Neste sentido, são deploravelmente mal direcionadas, pois, em vez de despertar o impulso de se alcançar a iluminação em benefício de todos os seres, elas tendem a estimular o narcisismo, a auto-ilusão e as falsas esperanças.
Escrito por Ricardo Coelho às 16h41
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Tradição – seguir ou não? (parte 1 de 2)
A palavra tradição encerra em si uma gama de significados e tanto pode ser usada num sentido positivo como algo que se perpetua no tempo de maneira pura e sem contaminações, como pode surgir com o significado de algo estagnado e que não consegue “evoluir”, algo antiquado e ultrapassado, algumas vezes até ligado a preconceitos e discriminações.
Qual dos dois significados mais se aproxima do que vem a ser a verdadeira tradição?
Preliminarmente, vejamos o que diz o Aurélio: (Do lat. Traditione) 1. Ato de transmitir ou entregar. 2. Transmissão oral de lendas, fatos, etc., de idade em idade, geração em geração. 3. Transmissão de valores espirituais através de gerações. 4. Conhecimento ou prática resultante de transmissão oral ou de hábitos inveterados. 5. Recordação, memória.
Talvez fosse mais fácil, até o início do século XX, receber e transmitir um ensinamento tradicional: – estamos falando de yoga, mas poderia ser qualquer outra disciplina esotérica – o guru ensinava ao discípulo, que somente tinha aquela fonte de informação e, após muitos anos de estudo e prática, podia também ensinar, da mesma forma que aprendeu. E assim se mantinha a tradição. Claro que, encontrar um verdadeiro guru, mesmo naquele tempo, era algo muito difícil, desse modo, o conhecimento era passado somente para poucos e pouco disseminado horizontalmente.
Porém, no século XX, especialmente mais perto de seu final, passamos a viver numa comunidade da informação, em que o conhecimento é muito divulgado horizontalmente, porém, naturalmente perdemos em profundidade. Recebemos muita informação, de diversas fontes diferentes, mas dificilmente conseguimos discernir qual a informação válida. Verdades são antagonizadas por contra-verdades e discernir o falso do verdadeiro já não é tão simples.
O verdadeiro conhecimento perdeu-se ou ainda está guardado? Quem detém a tão discutida e exultada palavra “tradição”? O que me insere na tradição? Quanto tempo preciso estudar? Quantas linhas diferentes de Yoga preciso aprender? Existe apenas um caminho verdadeiro?
Com a disseminação do conhecimento, os ensinamentos “secretos” já não são tão secretos assim. Estão acessíveis a qualquer simples mortal. Pode-se encontrar informações sobre qualquer conhecimento tradicional em livros ou até mesmo na internet. As informações estão aí a nosso dispor e basta acessá-las e estar disposto a aprender.
Dito assim, parecer ser bem simples, mas não é bem assim. Com a globalização da informação, podemos ler (ou assistir um vídeo) sobre o yoga e sobre aqueles que o praticam, mas jamais vivenciaremos o que eles vivenciam e aprendem. Boa parte do conhecimento não é passado em palavras ou imagens, é passado pela convivência, pela experiência pessoal e pelo aprendizado direto com um mestre qualificado. A profundidade mística do ensinamento é passada numa linguagem não verbal, pelo exemplo, pelas atitudes, pela maneira como a disciplina transforma o discípulo internamente.
Então, frequentemente observamos deformações do tipo: uma pessoa faz um curso de Hatha Yoga em dois fins de semana nas montanhas, outro sobre mantras numa tarde de sábado, outro de Power Yoga num DVD, aprende umas palavras básicas em sânscrito num livro e finalmente ”investe” num curso de 30 longos dias com um “mestre indiano legítimo”, pago a peso de ouro, claro, falado em inglês, mal traduzido por alguém que entende inglês e não entende yoga ou entende yoga e não entende inglês, e voilá: Junte todas essas informações e já pode se autodenominar professor de yoga e ganhar um dinheirinho com isso. O verdadeiro saber fica fragmentado, disperso, fundamentado no nada, nos conceitos e experiências pessoais somente, sem nenhuma coerência filosófica, sem base em conhecimentos legítimos, sem nenhuma estruturação ou objetivo.
Escrito por Ricardo Coelho às 16h38
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Tradição - seguir ou não (parte 2 de 2)
É claro que esse é um exemplo um tanto exagerado, embora real. Na verdade existem muitos profissionais bem intencionados que até procuram aprender de forma séria, mas o que eles encontram em sua busca? Muita informação e cada um apregoando que sua linha de ioga, ou forma de ensinar é a melhor, a mais “científica”, a mais moderna, a que “veio dos Estados Unidos”, etc., etc. O buscador fica confuso e acaba tentando fazer um pouco de tudo, se tiver tempo e dinheiro para tal. Mas, como dizia uma antiga música, “quem sabe de tudo um pouco, não sabe de nada tanto assim...”.
É nesse contexto que a palavra tradição adquire um significado de fundamental e insubstituível importância. Ter a oportunidade e o privilégio de entrar em contato com um ensinamento tradicional verdadeiro não pode nem deve ser desperdiçado. Esse é o caso do Dakshina Tantra Yoga. Ao aprendermos essa disciplina, estamos recebendo um conhecimento realmente puro, no sentido que vem sendo passado diretamente de guru a discípulo e nos chegou diretamente da Índia através de uma linhagem legítima. Claro que a palavra pureza está aqui empregada não num sentido virginal, intocado. Por mais que tentemos preservar a tradição do aprendido, o que aprendemos é dinâmico, não estático e está sujeito ao que conseguimos absorver de nosso professor e ao modo como nossa personalidade individual lida com isso e o passa adiante. Mas, independente disso, estamos falando de uma linhagem de ensinamento estruturada e mantida assim por alguns milhares de anos.
Então, qual nossa atitude, como professores, diante da magnitude dessa missão? Entendo que, inevitavelmente, com o advento da experiência pessoal, chegará um tempo em que poderemos “criar” sobre o que aprendemos, acrescentando aqui ou suprimindo ali, algo de acordo com as necessidades de nossos alunos. Acho que esse é um caminho natural. Por que não acrescentar algum conhecimento de outra disciplina que, com a consolidação do aprendizado, claro, pode tornar mais efetivo o resultado? Acho que essa seria um caminho natural e válido.
Mas nesse caso, onde irá parar a tradição? Não estarei eu, dessa forma, sendo infiel ao que aprendi? Estarei deformando e conspurscando a tradição?
Acho que aqui podemos separar duas coisas a fim de obter mais clareza.
Uma é a minha prática pessoal como professor, em que vou usar todos os instrumentos de que disponho para ajudar meu aluno a superar suas limitações. Essa será a minha proposta pessoal e devo usar com esse objetivo todos os instrumentos de que disponho, incluídos aí minha experiência de vida, minha forma de ver o mundo, minha personalidade, das quais não posso me dissociar.
Mas, e se me proponho a ensinar outros a ensinar? Aí a coisa já muda um pouco de figura. Pois seria excessivamente pretensioso interferir com minha visão pessoal, que afinal, embora sirva para mim de forma bastante satisfatória, não deve interferir em algo que é muito maior. Algo que foi aprendido e retransmitido por gerações e gerações, mantendo sua estrutura e finalidades básicas intactas. Então, nesse caso, devo voltar à tradição aprendida, no máximo possível sem interferências (se é que isso é possível) e deixar que cada um a absorva e transmute o conhecimento da melhor forma para si. Posso até acrescentar algum toque pessoal, afinal ainda não me livrei do ego totalmente... Mas devo deixar claro o que vem da tradição legítima e o que é minha criação ou alguma técnica retirada de outra linha ou outra disciplina aprendida em paralelo, a fim de não macular o que foi originalmente por mim aprendido.
Para terminar, leia a citação "Uma História Indiana", que fala exatamente sobre isso: o ensinamento e a maneira como cada um de nós o absorve.
Escrito por Ricardo Coelho às 16h36
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Neti Neti
“Eu não sou nem a mente nem o Intelecto Universal (buddhi), nem o sentido do eu nem o pensamento; nem o ouvido nem a língua, nem o nariz nem os olhos; não sou nem o éter, nem a terra, nem o fogo, nem o ar. Sou Shiva sob a forma de Consciência (cit) e Beatitude (ânanda). Sou Shiva.
Não sou nem o que se chama de força vital (prâna) nem os cinco ventos [que circulam pelo corpo]; nem os sete componentes [corpóreos], nem os cinco invólucros. Não sou nem a boca, nem as mãos, nem os órgãos genitais, nem o ânus. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva. Sou Shiva.
Não tenho nem ódio nem paixão, nem cobiça nem ilusão, nem euforia nem inveja. Não tenho virtude nem prosperidade, nem luxúria nem libertação. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva.
[Em mim não há] nem o bem nem o mal, nem a felicidade nem o sofrimento, nem o mantra nem a peregrinação, nem os Vedas nem sacrifícios. Não sou nem a comida, nem o que come, nem o ato de comer. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva.
Não sou [sujeito] à morte, nem ao medo, nem à casta. Não tenho nem pai nem mãe; [na verdade, nem sequer tive] um nascimento. Não tenho nem parentes nem amigos, nem mestre nem discípulos. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva.
Sou indiferenciado, de forma informe. Em virtude de [minha] onipresença estou em toda parte para o benefício de todos os sentidos. Não sou nem escravo nem liberto. [Sou] imensurável. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva.”
Nirvâna-Shatka (Seis [Versículos] sobre a Extinção) – poema atribuído a Shankara (século VIII D.C.).
Obs.:
É importante lembrar que o Shiva aí citado não é o da trindade hindu (Shiva, Brahma, Vishnu), mais usualmente conhecida. Esse é o Shiva da tradição tântrica, que é identificado com o próprio Absoluto. Ou Brahman segundo o Vedanta.
Escrito por Ricardo Coelho às 16h33
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Autor: Yâjnavalkya
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“[Depois da morte não há consciência] porque [só] onde há uma aparente dualidade (dvaita) um [ser] pode ver o outro; um pode cheirar o outro; um pode ouvir o outro; um pode falar com o outro; um pode pensar no outro; um pode compreender o outro. [Mas] lá onde verdadeiramente tudo se tornou tão somente o Si Mesmo, pelo que e quem [o ser] poderia cheirar? Pelo que e quem poderia ele ver? Pelo que e quem poderia ele ouvir? Pelo que e com quem poderia ele falar? Pelo que e em quem poderia ele pensar? Pelo que e quem poderia ele conhecer? Pelo que poderia ele conhecer aquilo pelo qual conhece tudo isso? Pelo que, na verdade, poderia ele conhecer o Conhecedor (vijnâtri)?”
Escrito por Ricardo Coelho às 16h32
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"Brihad-Aranyaka-Upanishad "
Autor: Yâjnavalkya
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“Esse Si Mesmo não é isto nem aquilo. É intangível, pois não pode ser pego. É incorruptível, pois não pode ser corrompido. É desapegado, pois não se apega [a coisa alguma]. É ilimitado. Não se agita nem pode ser ferido.”
Escrito por Ricardo Coelho às 16h30
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"DO LIVRO "SABEDORIA DE SRI AUROBINDO""
Autor: Sri Aurobindo (Nasceu em Calcutá, Índia, a 15 de Agosto de 1872. É considerado por muitos como o maior filósofo-sábio da Índia moderna).
Buscar na Web "Sri Aurobindo (Nasceu em Calcutá, Índia, a 15 de Agosto de 1872. É considerado por muitos como o maior filósofo-sábio da Índia moderna)."
Primeiro esteja certo do chamado e da resposta da tua alma. Se o chamado não for verdadeiro, não for o toque dos poderes de Deus, ou a voz de seus mensageiros, mas a ilusão de teu ego, o fim de teus esforços será um pobre fiasco espiritual ou até mesmo um desastre mais profundo. E se não for o fervor da alma, mas apenas o consentimento ou o interesse da mente que responde às intimações divinas, ou somente o desejo da vida inferior que se agarra a algum aspecto da atração dos frutos do prazer, ou apenas uma emoção transitória, que salta como uma chama insegura, movida pela intensidade da Voz ou sua doçura ou grandeza, então, também, pode haver pouca certeza para ti no difícil caminho. Os instrumentos exteriores do homem mortal não tem força para o levar através dos ardores severos dessa jornada espiritual e da titânica batalha interior, ou para enfrentar suas provações terríveis e obstinadas, ou encorajá-lo a vencer seus perigos sutis e tremendos. Somente a vontade firme e venerável do espírito e o fogo insaciável do ardor invencível de tua alma é que são suficientes para essa transformação difícil e esse empreendimento elevado e improvável. Não imagines que o caminho seja fácil; a senda é longa, árdua, perigosa e difícil. A cada passo existe uma emboscada, em cada curva uma cilada. Milhares de inimigos, vistos e não vistos, lançar-se-ão contra ti. Terríveis em sutileza contra tua ignorância, tremendos no poder contra tua fraqueza. E quando com dor conseguires destruí-los, outros milhares lançar-se-ão para tomar seu lugar. O inferno vomitará suas hordas para opor e cercear e ferir e ameaçar; os Céus enfrentar-te-ão com seus testes impiedosos e suas negações luminosas e frias. Encontrar-te-ás sozinho em tua angústia, os demônios furiosos em teu caminho, os Deuses relutantes acima de ti. Antigos e poderosos, cruéis, inconquistáveis, e próximos e inumeráveis são os Poderes terríveis e escuros que lucram com o reino da Noite e Ignorância, que não querem mudança e são hostis. Longínquos, lentos em chegar, distantes e poucos e breves em suas visitas, são Os luminosos que querem e são permitidos dar Socorro. Cada passo para frente é uma batalha. Há descidas precipitadas, há ascenções infindáveis e sempre picos e picos mais elevados para conquistar. Cada planalto escalado é apenas um estágio no caminho e revela, além, Alturas sem fim. Em cada vitória que tu pensas ser a última luta triunfante, evidencia-se somente o prelúdio de batalhas perigosas e centenas de vezes mais ferozes. Mas tu não disseste que a mão de Deus estará comigo e a Divina Mãe perto com seu gracioso sorriso de Socorro? E não sabes tu que a Graça de Deus é mais difícil de ter e de conservar que o néctar dos Imortais ou os tesouros inestimáveis de Kuvera? Pergunta a teus escolhidos e eles dir-te-ão quantas vezes o Eterno escondeu deles a Sua face, quão freqüentemente Ele se retirou para trás do seu véu misterioso e eles se encontraram sozinhos nas garras do Inferno, solitários no horror da escuridão, expostos e sem defesa na agonia da batalha. E se sua presença for sentida por trás do véu, todavia é como o sol de inverno por trás das nuvens e não salva da chuva e da neve e da tempestade calamitosa e do vento áspero e do frio cortante e da atmosfera de um cinzento doloroso e da monotonia parda e enfadonha. Sem dúvida o auxílio existe, mesmo quando parece ter se retirado, mas ainda há a aparência da noite total, sem um sol para chegar, e sem a estrela da esperança para dar prazer na escuridão. Bela é a face da Divina Mãe, mas ela também pode ser dura e terrível. Mas é, então, a imortalidade um brinquedo para ser dado levianamente a uma criança, ou a vida divina um prêmio sem esforço ou a coroa para um fraco? Esforça-te corretamente e conseguirás; confia e tua confiança acabará justificada; mas a Lei terrível do Caminho existe e ninguém pode derrogá-la.
Escrito por Ricardo Coelho às 16h24
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ENERGIZAÇÃO ASCENDENTE E DESCENDENTE DOS CHAKRAS
No trabalho terapêutico tântrico, segundo Rosas, duas espécies principais de energização dos chakras podem ser aplicadas. Uma delas é a energização horizontal (movimento de polaridade), em que procura-se equilibrar as características individuais de cada chakra, aumentando ou diminuindo seu grau de energização. A outra é a chamada energização vertical que pode ser no sentido ascendente (Laya Krama) ou no sentido descendente (Srsti Krama). Podemos, então, deduzir que existem dois tipos de tensão: o primeiro na estrutura de cada chakra, que é específico das distorções existentes dentro de um mesmo centro e o segundo, provocado por um deslocamento vertical da energia (de um nível para o outro), não decorrente de uma distorção interna de um nível, mas da perspectiva relativamente limitada oferecida por este nível. Este movimento vertical significa expandir a consciência para a compreensão do chakra superior seguinte, e não pode ser conseguido simplesmente através da eliminação das distorções dentro de um mesmo chakra, mas pela manifestação do chakra superior.
Dentro dessa visão evolutiva, o Tantra disponibiliza dois enfoques terapêuticos principais, um que preconiza o uso da energização no sentido ascendente e o outro no sentido descendente. No Laya Krama (ou caminho da dissolução), procura-se energizar cada chakra, segundo sua ordem de complexidade, de forma que os chakras superiores (mais complexos), transcendam e incluam as características dos chakras imediatamente inferiores, evitanto dessa forma uma fixação somente nos níveis horizontais de consciência (problemas vivenciais de cada chakra). Ou seja, um indivíduo fixado no Chakra Muladhara, por exemplo, mesmo o tendo equilibrado (no nível horizontal), possui uma visão de mundo ainda limitada ao ego, não permitindo que possa colocar-se no lugar do outro, tendo dificuldade de relacionar-se de forma madura e positiva com seus semelhantes. Ao "evoluir" para o Chakra Anahata, sua maneira de ver o mundo se amplia e lhe permite perceber o mundo de forma mais completa e compassiva do que no nível de energização anterior. O indivíduo, dessa forma, transcende suas limitações a cada energização superior e passa a ampliar sua perspectiva diante da Realidade. Por esse motivo, pessoas que possuem as características da personalidade mais centradas nos chakras inferiores devem ser tratadas preferencialmente com este enfoque. No Srsti Krama (ou caminho da criação), o movimento é descendente, ou seja, procura-se energizar os chakras de cima para baixo, primeiro os mais complexos e depois os mais básicos, mais ligados à materialidade. Essa técnica é indicada para personalidades que possuem sua energia mais centrada nos chakras superiores, excessivamente racionais e pouco pro-ativas, que possuem pouco contato com sua materialidade, e por isso necessitam ter um incremento na energização de seus chakras básicos, para que possam lidar de forma satisfatória com a realidade material do mundo.
Escrito por TantraYoga às 12h29
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JUNG E A RELAÇÃO MENTE-CORPO
Infelizmente, na análise o corpo frequentemente é negligenciado. Em 1946, Jung escreveu um artigo excepcional que faz a ponte com sua obra intitulada On The Nature Of The Psyche (Sobre a Natureza da Psique), no qual afirma que provavelmente a psique e o corpo são dois aspectos diferentes do todo e a mesma coisa[1]. Jung sabia que estavam essencialmente ligadas pela ação recíproca, embora a natureza real dessa relação ainda não fizesse parte de sua própria experiência. Desde que Jung faleceu em 1961, vem ficando claro como a inter-relação da psique e do corpo pode ocorrer. Não podemos esquecer, no entanto, que Jung já havia descoberto uma relação definitiva entre as duas extremidades opostas do espectro, a saber, o infravermelho, o pólo instintivo, e o ultravioleta, o pólo arquetípico. Jung sabia que esses dois aspectos claramente se complementavam, mas percebeu também que só poderia chegar até esse ponto naquela época, e teria de deixar a pesquisa aos que resolvessem segui-lo. Hoje, no mundo junguiano, geralmente se admite que existe uma ligação corpo-mente. No entanto, infelizmente se considera que, se a mente puder ser fortalecida, simplesmente levará o corpo consigo. Em outras palavras, acredita-se que a energia psíquica penetrará as células do corpo, permitindo que a transformação ocorra nos dois planos. Isso implica, é claro, que o corpo tem importância secundária em relação à mente, já que estaria "seguindo" a mente, por assim dizer. Considero essa suposição falsa, visto que observamos que o corpo não segue simplesmente o progresso da mente. Frequentemente tem uma "mente" própria e precisa ser tratado dessa forma. Conforme a minha experiência, a transformação simultânea do corpo e da mente só é possível se os dois lados forem trabalhados ao mesmo tempo. No Oriente, mente e corpo nunca foram tratados como entidades separadas. Se aceitarmos a teoria de Jung dos opostos como realidade cósmica, não poderemos considerar somente um lado e excluir o outro. Portanto, ambos devem ter um lugar igual na análise. A primeira vez que Jung mencionou a palavra "arquétipo" em suas obras, foi em seu ensaio intitulado "Instinct and the Unconscious" (O Instinto e o Inconsciente), escrito em 1919. Jung nunca duvidou que o instinto e o arquétipo eram complementares. Ele descreve os arquétipos e os instintos como os opostos mais extremos que se pode imaginar, como se pode facilmente perceber ao se comparar uma pessoa que se orienta por princípios instintivos com outra que se guia pelo princípio espiritual. Como os opostos são sempre qualidades extremas com um elo estreito entre eles, não é possível estabelecer uma posição de fato, nem mesmo pensada, sem a negação correspondente. Assim como ocorre com qualquer par de opostos, caso energia demais se manifeste em um dos pólos, o indivíduo pode ficar bastante desequilibrado. Por exemplo, uma pessoa consumida pelo instinto pode ser controlada pela obsessão sexual ou pela gula, enquanto que, se estiver dominada pelo pólo oposto, o arquetípico ou espiritual, ela seria levada, digamos, pela ideologia. Em ambos os casos não existe liberdade. Jung fala de um lugar em que os pólos opostos, espírito e matéria, tanto se encontram como não se encontram. Este lugar é o que hoje chamamos de "corpo sutil", o ponto intermediário entre espírito e corpo, entre os planos celestes e terrenos. (...) É neste corpo sutil que a mente e o corpo têm mútua influência. O corpo exibirá sintomas até que a mente se torne suficientemente forte para compreender e carregar o conflito. Jung nos diz que os instintos e os arquétipos, juntos, formam o inconsciente coletivo, o que significa que ambos são fenômenos universais e que ocorrem regularmente, e que em essência não têm nada a ver com a individualidade. Ele afirma também que não se pode lidar com os instintos sem considerar os arquétipos porque, no final, eles são determinantes recíprocos e influenciam-se mutuamente. (...) Do ponto de vista de Jung, a mente consiste tanto do sentido arquetípico quanto do instintivo mundo da matéria. Diz ele: Como a mente e a matéria estão em um mesmo mundo e, além disso, estão em contato constante uma com a outra e por fim repousam sobre fatores irrepresentáveis e transcendentais, não é apenas possível mas bastante provável até que a mente e a matéria sejam dois aspectos diferentes de uma mesma coisa. A meu ver, os fenômenos de sincronicidade apontam nessa direção, pois eles mostram que o não-psíquico pode comportar-se como o psíquico, e vice-versa, sem haver nenhuma relação causal entre eles. Nosso conhecimento atual não nos permite fazer muito mais além de comparar a relação entre o mundo psíquico e o mundo material com dois cones cujos ápices, que se encontram em um ponto sem extensão ? um ponto-zero real - , se tocam e não se tocam[2]
Negligenciar o corpo é negligenciar metade de nosso mundo. É negligenciar de onde viemos, a prima materia. É desconsiderar nossa relação com a terra, com a matéria, com o mundo da natureza e do feminino. Por outro lado, negligenciar o mundo arquetípico é reduzir a possibilidade de cura. Ambos os aspectos são necessários para a transformação. A mente deve incluir todo o espectro, de instinto a arquétipo.
Harris, Judith Jung e o Ioga - A Ligação Corpo-Mente Ed. Claridade, São Paulo, 2004, Pag. 22 [1] The Structure and Dynamics of the Psyche, o. r. 8, ps. 343 e seguintes. [2] "On The Nature of Psyche", The Structure and Dynamics of the Psyche, o. r.8, par. 418.
Escrito por TantraYoga às 12h26
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A MÃE
Sri Aurobindo
PARTE I
Há dois poderes que, unicamente eles, podem efetuar em sua conjunção a coisa grande e difícil que é o objetivo de nosso esforço ? uma aspiração firmemente estabelecida e incansável que chama de baixo e uma suprema Graça do alto que responde.
Mas a suprema graça agirá somente nas condições da Luz e da Verdade; ela não vai agir em condições a ela impostas pela Falsidade e pela Ignorância. Pois se ela tivesse de submeter-se às exigências da Falsidade, ela invalidaria seu próprio propósito.
Estas são as condições da Luz e da Verdade, as únicas condições sob as quais a Força mais alta descerá; e é somente a Força mais alta supramental, descendo do alto e abrindo a partir de baixo, que pode lidar vitoriosamente com a natureza física e aniquilar suas dificuldades? Deve haver uma entrega total e sincera; deve haver uma abertura-de-si exclusiva ao Poder divino; deve haver uma escolha constante e integral da Verdade que desce, uma rejeição constante e integral da falsidade dos Poderes e Aparências mentais, vitais e físicos que ainda regem a Natureza-terra.
A entrega deve ser total e apoderar-se de todas as partes do ser. Não é suficiente que o psíquico responda e o mental mais alto aceite, ou mesmo que o vital interior se submeta e a consciência física interior sinta a influência. Não deve haver em nenhuma parte do ser, mesmo na mais externa, nada que se reserve, nada que se esconda atrás de dúvidas, confusões e subterfúgios, nada que se revolte ou recuse.
Se uma parte do ser se entrega mas uma outra parte se reserva, segue seu próprio caminho ou coloca suas próprias condições, então, cada vez que isto acontece, você mesmo está empurrando a Graça divina para longe de você.
Se por trás de tua devoção e entrega você abriga teus desejos, exigências egoístas e insistências vitais, se você põe estas coisas no lugar da aspiração verdadeira ou as mistura com ela, tentando impô-las à Shakti Divina, então é inútil invocar a Graça divina para transformar você.
Se você, em um lado ou em uma parte se abre à Verdade e em outro lado está constantemente abrindo as portas às forças hostis, é inútil esperar que a Graça divina fique com você. Você tem de manter o templo limpo se quiser instalar a Presença viva ali.
Se cada vez que o Poder intervem e introduz a Verdade você volta as costas a ele e chama de novo a falsidade que havia sido expulsa, não é a Graça divina que você deve acusar de abandoná-lo, mas a falsidade de tua própria vontade e a imperfeição de tua própria entrega.
Se você chama a Verdade e no entanto algo em você escolhe o que é falso, ignorante e não-divino, ou mesmo simplesmente se nega a rejeitar isto totalmente, então você sempre estará aberto a ataques, e a Graça recuará de você. Descubra primeiro o que é falso ou obscuro em você e persistentemente rejeite isto, e só então poderá com direito chamar o Poder divino para transformá-lo.
Não pense que verdade e falsidade, luz e escuridão, entrega e egoísmo possam ter a permissão de morar juntos na casa consagrada ao Divino. A transformação deve ser integral, e integral portanto a rejeição de tudo que a ela resiste.
Rejeite a noção falsa de que o Poder divino fará e é obrigado a fazer tudo para você segundo tua exigência, mesmo não satisfazendo as condições estabelecidas pelo Supremo. Torne tua entrega verdadeira e completa, e só então todo o resto será feito para você.
Rejeite também a falsa e indolente expectativa de que o Poder divino fará até mesmo a entrega por você. O Supremo pede tua entrega, mas não a impõe: você é livre a todo momento ? até a transformação irrevogável chegar ? para negar e rejeitar o Divino ou para revogar teu dar-se, se você está disposto a sofrer a conseqüência espiritual. Tua entrega deve ser feita por você mesmo e livre; deve ser a entrega de um ser vivo, não a de um autômato inerte ou de uma ferramenta mecânica.
Uma passividade inerte é constantemente confundida com a entrega real, mas de uma passividade inerte nada de verdadeiro e poderoso pode nascer. É a passividade inerte da Natureza física que a deixa exposta a toda influência obscura ou não-divina. Exige-se uma alegre e forte e útil submissão ao trabalho da Força Divina, a obediência do iluminado discípulo da Verdade, do Guerreiro interior que luta contra a obscuridade e a falsidade, do servidor fiel do Divino.
Esta é a atitude verdadeira, e somente aqueles que podem assumi-la e mantê-la preservam uma fé não abalada por decepções e dificuldades e passarão da provação à vitória suprema e à grande transmutação.
PARTE II
Em tudo o que é feito no universo, o Divino, através de sua Shakti, está por trás de toda ação, mas está velado por sua Maya-de-Ioga e trabalha através do ego do Jiva na natureza inferior.
Também no Ioga é o Divino que é o Sadhaka e a Sadhana; é a Shakti dele com sua luz, poder, conhecimento, consciência, Ananda, agindo sobre o adhara e, quando este está aberto para ela, derramando-se nele com estas forças divinas, a Sadhana se torna possível. Mas enquanto a natureza inferior estiver ativa, o esforço pessoal do Sadhaka continua sendo necessário.
O esforço pessoal requerido é um tríplice labor de aspiração, rejeição e entrega:
uma aspiração vigilante, constante, incessante ? a vontade da mente, a busca do coração, o consentimento do ser vital, a vontade de abrir e tornar plásticas a consciência e a natureza físicas;
rejeição dos movimentos da natureza inferior ? rejeição das idéias, opiniões, preferências, hábitos e construções mentais, para que o conhecimento verdadeiro possa encontrar espaço livre em uma mente silenciosa ? rejeição dos desejos da natureza vital, das exigências, anseios, sensações, paixões, egoísmo, orgulho, arrogância, volúpia, ganância, ciúme, inveja, hostilidade à Verdade, para que o verdadeiro poder e alegria possam jorrar de cima para dentro de um ser vital calmo, amplo, forte e consagrado ? rejeição da estupidez, dúvida, descrença, obscuridade, resistência, pequenez e preguiça na natureza física, rejeição de mudança, Tamas, para que a estabilidade verdadeira da Luz, do poder, da Ananda possa se estabelecer em um corpo crescendo sempre mais divino;
entrega de si e de tudo o que se é e se tem e cada plano de consciência e cada movimento ao Divino e à Shakti.
Na proporção em que a entrega e a autoconsagração progridem, o Sadhaka torna-se consciente da Shakti Divina fazendo a Sadhana, derramando-se nele cada vez mais, instituindo nele a liberdade e a perfeição da Natureza Divina. Quanto mais este processo consciente toma o lugar de seu próprio esforço, mais rápido e real se torna seu progresso. Mas este processo não pode substituir completamente a necessidade de esforço pessoal até que a entrega e a consagração sejam puras e completas de alto a baixo.
Note que uma entrega tamásica que se recusa a satisfazer as condições e chama Deus para fazer tudo e livrar a pessoa de toda aflição e luta é uma decepção e não conduz à liberdade nem à perfeição.
PARTE III
Para caminhar pela vida protegido contra todo medo, perigo e desastre, só duas coisas são necessárias, duas que andam sempre juntas ? a Graça da Mãe Divina e, ao seu lado, um estado interior composto de fé, sinceridade e entrega. Que tua fé seja pura, cândida e perfeita. Uma fé egoísta no ser mental e vital, contaminada por ambição, orgulho, vaidade, arrogância mental, vontade própria vital, exigência pessoal, desejo pelas pequenas satisfações da natureza mais baixa, é uma chama baixa e enfumaçada que não pode queimar erguendo-se ao céu. Olhe tua vida como dada a você somente para o trabalho divino e para ajudar na manifestação divina. Não deseje nada a não ser pureza, força, luz, amplitude, calma, Ananda da consciência divina e sua insistência para transformar e aperfeiçoar tua mente, vida e corpo. Não peça nada a não ser a Verdade divina, espiritual, supramental, sua realização sobre a terra, em você e em todos que são chamados e escolhidos , e as condições necessárias para sua vinda e sua vitória sobre todas as forças que se opõem.
Que tua sinceridade e entrega sejam genuínas e inteiras. Quando se der, dê-se completamente, sem exigência, sem condições, sem reserva, de modo que tudo em você possa pertencer à Mãe Divina e nada seja deixado ao ego ou dado a algum outro poder.
Quanto mais completa tua fé, sinceridade e entrega, tanto mais a graça e a proteção da Mãe Divina estarão contigo. E quando a graça e a proteção da Mãe Divina estão contigo, o que é que pode atingi-lo, ou quem você deve temer? Mesmo um pouco disto te conduzirá através de todas as dificuldades, obstáculos e perigos; rodeado por sua presença plena, você pode ir seguramente em teu caminho porque é o caminho dela, despreocupado de toda ameaça, não afetado por nenhuma hostilidade ainda que poderosa, seja deste mundo ou de mundos invisíveis. Seu toque pode mudar dificuldades em oportunidades, fracasso em sucesso e fraqueza em força que não vacila. Porque a graça da Mãe Divina é a sanção do Supremo, e, cedo ou tarde, seu efeito é certo, uma coisa decretada, inevitável e irresistível.
PARTE IV
O dinheiro é o sinal visível de uma força universal, e esta força, em sua manifestação sobre a terra, trabalha nos planos vital e físico e é indispensável para a plenitude da vida exterior. Em sua origem e em sua ação verdadeira ele pertence ao Divino. Mas, assim como os outros poderes do Divino ele está delegado aqui, e na ignorância da Natureza inferior pode ser usurpado para os usos do ego ou mantido pelas influências asúricas e pervertido para o seu propósito. Esta é, sem dúvida, das três forças ? poder, riqueza, sexo ? a que tem a mais forte atração para o ego humano e para o Asura e elas são geralmente mais erroneamente possuídas e usadas por aqueles que as detêm. Os que procuram ou guardam riqueza, na maioria das vezes, são mais possuídos por ela do que seus possuidores; poucos escapam completamente de uma certa influência deturpadora estampada nela em conseqüência de sua longa retenção e perversão pelo Asura. Por esta razão, a maioria das disciplinas espirituais insiste em um completo autocontrole, desapego e renúncia a toda escravidão à riqueza e a todo desejo pessoal e egoísta por sua posse. Algumas até mesmo proíbem o dinheiro e as riquezas e proclamam pobreza e nudez de vida como a única condição espiritual. Mas isto é um erro; isto deixa o poder nas mãos das forças hostis. Reconquistá-lo para o Divino, a quem ele perence, e usá-lo divinamente para a vida divina, é o caminho supramental para o Sadhaka.
Você não deve rejeitar com um desprezo ascético o poder do dinheiro, os meios que ele proporciona e os objetos que ele consegue, nem nutrir um apego rajásico por eles ou um espírito de escravizada auto-indulgência em relação às suas gratificações. Considere a riqueza simplesmente como um poder a ser reconqustado para a Mãe e colocado a seu serviço.
Toda riqueza pertence ao Divino e aqueles que a têm são depositários, não possuidores. Ela está com eles hoje, amanhã poderá estar em qualquer outra parte. Tudo depende da maneira como eles dão conta de sua tarefa enquanto ela está com eles, em que espirito, com que consciência em seu uso dela, para que finalidade.
No seu uso pessoal do dinheiro considere tudo o que você tem ou recebe ou traz como sendo da Mãe. Não faça nenhuma exigência, mas aceite o que você recebe dela e use isso para os propósitos pelos quais isso te foi dado.
Seja inteiramente sem egoísmo, inteiramente escrupuloso, exato, cuidadoso em detalhe, um bom depositário; sempre considere que são as posses dela e não as tuas que você está manipulando. Por outro lado, o que você recebe para ela, coloque religiosamente diante dela: não desvie nada para teu próprio propósito ou para o de alguma outra pessoa.
Não admire os homens por causa de suas riquezas nem se permita ficar impressionado pela ostentação, pelo poder ou pela influência. Quando você pede para a Mãe, você deve sentir que é ela que está exigindo através de você um pouquinho daquilo que pertence à ela, e o homem a quem você pede será julgado pela resposta dele.
Se você está livre da contaminação do dinheiro mas sem nenhuma recusa ascética, você terá um poder maior de manipular o dinheiro para o trabalho divino. Igualdade de mente, ausência de desejo e a inteira dedicação de tudo que você possui e recebe e de todo seu poder de aquisição à Shakti Divina e a seu trabalho são os sinais desta liberdade. Qualquer perturbação da mente com relação ao dinheiro e ao seu uso, qualquer exigência, qualquer inveja é uma indicação segura de alguma imperfeição ou escravidão.
Sob este ponto de vista, o Sadhaka ideal é aquele que, se solicitado a viver pobremente, pode viver assim e nenhum sentido de necessidade vai afetá-lo ou interferir no pleno jogo interior da consciência divina, e se ele for solicitado a viver ricamente, pode viver assim e nunca, em nenhum momento, cair no desejo ou no apego de sua riqueza ou às coisas que usa, ou na escravidão à auto-indulgência, ou em uma passiva submissão aos hábitos que a posse de riquezas cria. A Vontade divina e a Ananda divina são tudo para ele.
Na criação supramental a força do dinheiro precisa ser restituída ao Poder Divino e usada por um equipamento e organização verdadeiros e belos e harmoniosos de uma nova existência vital e física divinizadas em qualquer que seja a maneira que a Mãe Divina decida em sua visão criativa. Mas antes disso a força do dinheiro deve ser conquistada de volta para ela, e os mais fortes para a conquista serão aqueles que nesta parte de sua natureza forem fortes e grandes e livres do ego e entregues sem nenhuma exigência ou reserva ou hesitação, puros e poderosos canais para o poder Supremo.
PARTE V
Se você quer ser um real executor dos trabalhos divinos, teu primeiro objetivo deve ser estar totalmente livre de todo desejo e do ego egoísta. Toda a tua vida deve ser uma oferenda e um sacrifício ao Supremo; teu único objetivo na ação deve ser servir, receber, cumprir, tornar-se instrumento manifestador da Shakti Divina nos trabalhos dela. Você deve crescer na consciência divina até que não haja nenhuma diferença entre tua vontade e a dela, nenhum motivo a não ser o impulso dela em você, nenhuma ação que não seja a ação consciente dela em você e através de você.
Até que você seja capaz desta identificação dinâmica completa, você tem de ver a si mesmo como uma alma e um corpo criados a serviço dela, um ser que faz tudo em função dela. Mesmo que a idéia do trabalhador separado esteja forte em você e sinta que é você quem realiza o ato, ainda assim ele deve ser realizado para ela. Toda compulsão de escolha egoísta, todo anseio por proveito pessoal, toda estipulação de desejo interesseiro deve ser extirpada da
Escrito por TantraYoga às 12h25
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Neti Neti
“Eu não sou nem a mente nem o Intelecto Universal (buddhi), nem o sentido do eu nem o pensamento; nem o ouvido nem a língua, nem o nariz nem os olhos; não sou nem o éter, nem a terra, nem o fogo, nem o ar. Sou Shiva sob a forma de Consciência (cit) e Beatitude (ânanda). Sou Shiva.
Não sou nem o que se chama de força vital (prâna) nem os cinco ventos [que circulam pelo corpo]; nem os sete componentes [corpóreos], nem os cinco invólucros. Não sou nem a boca, nem as mãos, nem os órgãos genitais, nem o ânus. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva. Sou Shiva.
Não tenho nem ódio nem paixão, nem cobiça nem ilusão, nem euforia nem inveja. Não tenho virtude nem prosperidade, nem luxúria nem libertação. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva. [Em mim não há] nem o bem nem o mal, nem a felicidade nem o sofrimento, nem o mantra nem a peregrinação, nem os Vedas nem sacrifícios. Não sou nem a comida, nem o que come, nem o ato de comer. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva. Não sou [sujeito] à morte, nem ao medo, nem à casta. Não tenho nem pai nem mãe; [na verdade, nem sequer tive] um nascimento. Não tenho nem parentes nem amigos, nem mestre nem discípulos. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva.
Sou indiferenciado, de forma informe. Em virtude de [minha] onipresença estou em toda parte para o benefício de todos os sentidos. Não sou nem escravo nem liberto. [Sou] imensurável. Sou Shiva sob a forma de Consciência e Beatitude. Sou Shiva.”
Nirvâna-Shatka (Seis [Versículos] sobre a Extinção) – poema atribuído a Shankara (século VIII D.C.). Obs.:É importante lembrar que o Shiva aí citado não é o da trindade hindu (Shiva, Brahma, Vishnu), mais usualmente conhecida. Esse é o Shiva da tradição tântrica, que é identificado com o próprio Absoluto. Ou Brahman segundo o Vedanta.
Escrito por Ricardo Coelho às 20h41
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