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    “O principal ato de vontade não é o esforço, mas o consentimento... Tentar obter as coisas pela força de vontade é reforçar o falso eu... Mas à medida que a vontade sobe a escada da liberdade interior, sua atividade torna-se cada vez mais um consentimento para a aproximação de Deus, para o influxo da Graça.”

    Thomas Keating



    Escrito por Ricardo Coelho às 17h38
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    Budismos Hinayana, Mahayana e Vajrayana, segundo Ken Wilber

    (texto transcrito do livro “Graça e Coragem” de Ken Wilber, tradução de Ary Raynsford, onde ele descreve sua experiência pessoal em um retiro de meditação budista com o Mestre Kalu Rinpoche, em 1986)


    “O Budismo Tibetano divide o caminho espiritual global em três grandes estágios (cada um deles com vários subestágios): o Hinayana, o Mahayana e o Vajrayana.

    O Hinayana é a prática fundacional, a prática essencial e básica encontrada em todas as escolas do Budismo. Central nesse estágio é a prática do vipassana, ou meditação de insight.

    No vipassana, a pessoa simplesmente se senta numa posição confortável, e presta uma “atenção simples” a qualquer coisa que surja, externa ou internamente, sem julgá-la, condená-la, seguí-la, evitá-la ou desejá-la.

    Você simplesmente testemunha a experiência imparcialmente e depois a libera. O objetivo dessa prática é verificar que o ego separado não é uma entidade real e significativa, mas apenas uma série de sensações passageiras e impermanentes como qualquer outra coisa. Quando se percebe quão “vazio” é o ego, cessam a identificação, a defesa e a preocupação com ele, e assim nos liberamos da infelicidade e sofrimento crônicos por defender algo que não existe. Como explicado por Wei Wu Wei:

    “Por que você é infeliz?

    Porque 99,9% do que você pensa,

    e tudo que você faz,

    é para seu ego,

    e não existe nenhum.”


    Por mais profunda que seja essa prática, ela não é completa, porque ainda existe um dualismo sutil contido na consciência pura da Testemunha. Há muitas maneiras técnicas para explicar isso, mas a mais simples é: o nível do Hinayana tem por meta a iluminação individual, mas negligencia a iluminação dos outros. E isso não mostra que existe um traço de ego que sobrou: pense no seu e esqueça o dos outros?

    Assim, enquanto o ensinamento do Hinayana ressalta a iluminação individual, a doutrina do Mahayana dá um passo adiante e destaca a iluminação de todos os seres. Desse modo, ela é, acima de tudo, o caminho da compaixão, e não somente sob o aspecto teórico; existem práticas reais para desenvolver a compaixão na mente e no coração.

    A mais notável dessa práticas é a conhecida por tonglen, que significa “absorver e enviar”. Após a pessoa ter desenvolvido de forma consistente a prática fundamental do vipassana, parte-se para a prática do tonglen. Por ser tão poderosa e transformadora, essa prática foi mantida em segredo até recentemente no Tibete. A prática é a seguinte:

    Durante a meditação, conceba ou visualize alguém, que você conhece e ama, que esteja passando por muito sofrimento – doença, perda, depressão, dor, ansiedade, medo. Na inspiração, imagine que o sofrimento da pessoa – sob a forma de nuvens escuras negras, enfumaçadas, alcatroadas, espessas e pesadas – entra pelas suas narinas e aloja-se no seu coração. Prenda a respiração, absorvendo Todo esse sofrimento no coração. Em seguida, na expiração, vivencie paz, liberdade, saúde, bondade e virtude, e as envie para a pessoa sob a forma de luz curativa e libertadora. Imagine que ela absorva isso tudo e sinta-se completamente livre, liberada e feliz. Repita o procedimento por diversas respirações. A Seguir, imagine a cidade em que a pessoa mora e na inspiração absorva o sofrimento da cidade; na expiração, envie sua saúde e felicidade para todos que vivem lá. Repita a prática para o estado, o país, o planeta, o universo. Você está absorvendo o sofrimento dos seres de toda parte e enviando de volta saúde, felicidade e virtude.

    Quando as pessoas são apresentadas pela primeira vez a essa prática, suas reações são normalmente fortes, viscerais e negativas. As minhas foram. Absorver aquele piche preto? Você está brincando? E se eu ficar doente? Isto é loucura, muito perigoso! Quando Kalu Rimpoche nos deu as instruções do tonglen, a prática que ocupou o período intermediário do retiro, uma mulher, entre as cerca de cem pessoas do público, levantou-se e expressou o que praticamente Todo mundo estava pensando:

    “Mas e se eu fizer isso com alguém que estiver realmente doente e contrair eu mesma a doença?”

    Sem hesitar, Kalu respondeu: “Vc deve pensar: oh, que bom!, está funcionando!”

    Ele pôs o dedo na ferida. Pegou-nos a todos. “budistas sem ego”, com nosso ego exposto. Nós praticaríamos para atingir nossa própria iluminação, reduzir nosso próprio sofrimento, mas absorver o sofrimento dos outros, mesmo que apenas na imaginação? Nem pensar.

    O tonglen foi projetado exatamente para acabar com a autopreocupação, autopromoção e autodefesa egóicas. Ele troca o eu pelo outro e, desse modo, atinge profundamente o dualismo sujeito/objeto. Ele nos incentiva a enfraquecer o dualismo eu/outro exatamente no ponto em que temos mais medo: ferir a nós mesmos. Não simplesmente falar em sentir compaixão pelo sofrimento dos outros, mas estar disposto a absorvê-lo em nosso coração e libertá-los dele. Esta é a autêntica compaixão, o caminho do Mahayana. De uma certa forma, é o equivalente budista do que Cristo fez: dispor-se a assumir os pecados do mundo para, em seguida, transformá-los (e nos transformar).

    O ponto é bastante simples: para o verdadeiro Eu, ou Eu único, o eu e o outro podem ser facilmente permutados; já que ambos são iguais, não fazem nenhuma diferença para o Eu único. Reciprocamente, se não conseguimos permutar o eu pelo outro é porque estamos fechados para consciência do Eu único, impedidos de acessar a pura consciência não dual. Nossa resistência em assumir o sofrimento alheio nos aprisiona em nosso próprio sofrimento, sem saída, porque nos fecha em nosso eu, ponto.

    Começa a acontecer uma coisa estranha quando se pratica o tonglen por algum tempo. Em primeiro lugar, ninguém fica doente. Não tenho conhecimento de nenhum caso legítimo em que alguém ficou doente por causa do tonglen, embora muitos de nós usemos esse medo como desculpa para não praticá-lo. Ao contrário, você pára de recuar em face do sofrimento, tanto seu quanto dos outros. Você pára de fugir da dor e, ao contrário, descobre que pode transformá-la simplesmente estando disposto a assumí-la, para, em seguida, liberá-la. Acontecem mudanças reais, apenas pela vontade de eliminar suas tendências protetoras do ego. Você começa a aliviar a tensão eu/outro, percebendo que existe apenas um Eu que sente todas as dores e desfruta de todas as alegrias. Por que sentir inveja dos outros, quando há apenas um Eu que se deleita com o sucesso? É por isso que o lado “positivo” do tonglen é expresso na afirmação: eu me regozijo com o mérito dos outros; ele também é meu na consciência não-dual. Desenvolve-se uma grande “consciencia de igualdade”, que, por um lado, extermina o orgulho e a arrogância e, por outro, o medo e a inveja.

    Quando se estabelece o caminho da compaixão do Mahayana, quando a permutabilidade do eu e do outro é realizada, pelo menos até certo ponto, então se está pronto para o caminho do Vajrayana. O Vajrayana é baseado em um princípio inflexível: só existe o Espírito. À medida que se extingue a dualidade sujeito/objeto em todas as suas formas, fica cada vez mais óbvio que todas as coisas, transcendentes ou mundanas, sagradas ou profanas, são, completa e igualmente, manifestações ou ornamentos perfeitos do Espírito, da Mente de Buda. Reconhece-se o universo manifesto inteiro como um jogo da própria consciência, vazia, luminosa, clara, radiante, desobstruída, espontânea. Aprende-se a não buscar tanto a consciência, mas encantar-se com ela, brincar com ela, já que existe somente ela. O Vajrayana é o caminho de vibrar com a consciência, com a energia, com a luminosidade, refletindo a sabedoria perene de que o universo é um jogo do Divino e você e todos os seres sencientes são o Divino.

    O caminho doVajrayana apresenta três divisões principais. Na primeira (os tantras exteriores), você visualiza a Divindade à frente ou em cima da sua cabeça e imagina a energia e luz curativa banhando você, conferindo-lhe bençãos e sabedoria. Esse, claro, é o nível psíquico, nível seis, onde se estabelece pela primeira vez uma comunhão com a Divindade.

    Na segunda divisão (os tantras interiores mais baixos), você se visualiza como a Divindade e repete certas sílabas ou mantras que representam a fala divina. Esse é o nível sutil, nível sete, o nível do estabelecimento da união com a Divindade.

    E, finalmente, na terceira divisão (os tantras interiores mais elevados, mahamudra e maha-ati), dissolve-se tanto o eu quanto a Divindade no puro vazio não-manifesto, o nível causal da derradeira identidade. Nesse ponto, a prática não mais envolve visualização, recitação de mantras ou concentração, mas sim a realização de que sua própria consciência, da forma como é, está sempre iluminada a cada momento. Desde que todas a coisas já são o Espírito, não existe nenhum modo de alcançar o Espírito. Há apenas o Espírito em todas a direções, e aí simplesmente nos mantemos na natureza espontânea da mente propriamente dita, abraçando sem esforço tudo que surge como ornamentos da nossa própria experiência primordial. O não-manifesto e o manifesto, o vazio e a forma, unem-se no puro jogo não-dual da consciência – geralmente considerado como o estado supremo, mas que não é nenhum estado em particular.”



    Escrito por Ricardo Coelho às 19h32
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