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Os Atletas do Yoga
Recentemente recebi um email com um convite para um mega-evento em São Paulo patrocinado pela multinacional de artigos esportivos Adidas. Até aí, tudo perfeitamente normal, nada de novo. Mas o detalhe é que o evento não era de futebol, basquete ou ginástica olímpica, era sobre yoga!
Isso me deixou encafifado e curioso. Dei uma olhada no site que era indicado no email e vi que o negócio era sério, com grande produção e visita de grandes mestras internacionais (segundo os patrocinadores...), e o que é melhor, com a módica quantia de 65 reais de inscrição, ainda levava de brinde um “mat” e uma camiseta da Adidas (além de um lanchinho)! Comentei com a Marcia, minha esposa e ela disse: por que não vamos? Deve ser divertido e ainda passeamos em São Paulo!
Então, fizemos as malas e fomos ao tal evento, cheios de curiosidade e expectativa – não que esperasse um grande aprendizado com as mestras da adidas – mas seria uma experiência interessante (e ainda ganhava uma camiseta de fibra de bambu!). Na verdade todo o evento era direcionado para o lançamento da linha para prática de yoga da empresa, só para as meninas, incluindo tapetinho (me recuso a chamar de “mat”) e, pasmem, tênis! A apresentadora do evento era a Virgínia Novick, aquela que ficou famosa fazendo o comercial das lojas Marisa (os muito jovens não devem lembrar...), e a grande estrela do dia era a americana Raimbeau Mars, embaixadora mundial da adidas, que, segundo os organizadores, desenvolveu uma nova modalidade de yoga: a “adidas yoga”. Não é brincadeira, o nome é esse mesmo.
A moça entrou no palco com toda a pompa de estrela e no local deviam ter umas 300 pessoas ou mais (não sou muito bom nessas contas, mas dá pra ter uma idéia nas fotos que coloquei no fotoblog http://bhadrajaya.nafoto.net/ ), falou umas frases de efeito sobre os benefícios do yoga, passou um vídeo no telão com grandes estrelas do esporte mundial praticando yoga, e começou sua apresentação à qual os presentes tentavam acompanhar – confesso que a moça realmente é uma atleta e faz as posturas com perfeição, além de ser bastante bela (apenas uma coincidência, claro, pois esse não foi o critério de escolha da adidas!). Tentei até acompanhar, mas era difícil prestar atenção e fazer as posturas ao mesmo tempo, visto que ela mudava muito rapidamente de uma para outra. Um detalhe sobre o perfil do público: a maioria absoluta era feminino, claro, mas havia mais homens do que eu esperava, e digamos que 80% estava na faixa dos 18 aos 30 anos. Muitas conseguiam acompanhar bem as posturas (difíceis!), mas grande parte apenas tentava e torcia o corpo e a coluna de forma bastante perigosa. Não tive paciência de ficar até o fim dessa aula, e fui passear um pouco pelo evento, o que me fez perder a aula da embaixadora nacional da adidas, Lily Hastings, mas ainda assisti e dessa vez acompanhei até o fim a aula da, acho que mexicana, Ana Paula Dominguez (também bonitinha e jovem) de “kundalini yoga”. Essa foi interessante e tinha muitos elementos semelhantes ao tantra, mas fiquei na dúvida se a professora sabia o que estava ensinando... essa é mais perigosa ainda que a ioga atlética, pois trabalha diretamente com a energia sutil (deu pra sentir) e se for aplicada irresponsavelmente pode fazer mais mal que bem.
Também experimentei uma atividade num stand auto-intitulada de “yoga gravitacional”, uma espécie de yoga kuruntha com alta tecnologia (veja o fotoblog). Não era ioga, mas era divertido ficar de cabeça pra baixo e poderia ser uma técnica auxiliar para preparação – mas o custo dos equipamentos é muito alto para professores financeiramente prejudicados, como eu (quem sabe com o patrocínio da adidas...).
Dito isso, qual o saldo do evento? Foi bom para perceber que o yoga definitivamente está virando um grande negócio e essa tendência é irreversível. Não adianta espernear, pois as grandes corporações já descobriram o filão. Mas isso é ruim? Não acho que seja, pois aquelas pessoas podiam estar roubando, estar matando, estar fumando cocaína e cheirando maconha, mas estão fazendo yoga! Brincadeirinha... a idéia de escrever esse texto era para fazer uma reflexão séria sobre os rumos do yoga, mas não consigo deixar de achar engraçado. A verdade é que cada um trabalha no seu nicho e a popularização do yoga, embora traga em si toda uma gama de problemas e deformações, também pode ter seu lado positivo. Importante é que os profissionais sérios e que buscam preservar a tradição continuem fazendo seu trabalho, independentemente das tempestades que ocorrem no mundo lá fora. As pessoas prontas para fazer um trabalho sério e preparadas irão aparecer e procurar esses profissionais mais cedo ou mais tarde. O que não podemos é pensar que fazendo um trabalho sofisticado e profundo iremos atingir grandes camadas da população – a massa, mesmo que seja de uma elite econômica – essa é objeto de cobiça das grandes corporações, que sabem lidar com isso melhor do que nós. Entendo que, por exemplo, de um grupo de mil pessoas que estejam acompanhando um evento como esse, 20 ou 30 talvez um dia percebam que aquela ioga é legal, mas lhe falta alguma coisa, e acabarão por procurar um caminho maior de aprofundamento. Aqui vou fazer uma afirmação polêmica: o yoga de verdade não é para as massas, tanto aqui como sempre foi na Índia, sua terra natal. Muitos amigos que já visitaram a Índia pensando encontrar as pessoas praticando ioga em cada esquina, e academias em cada rua, ficaram surpresos e decepcionados ao não encontrar nada disso, ao constatar que a maior parte dos indianos não pratica yoga. O Yoga é para poucos, isso se considerarmos o yoga como fonte de crescimento espiritual e evolução pessoal. Por esse entendimento, essa divulgação massificada do yoga pode ser uma coisa boa para a saúde das pessoas, desde que seja ensinada com seriedade. É importante que apenas continuemos nossa militância de tentar aprender e ensinar o yoga mais próximo possível de sua tradição original, para que ela não se perca nesse processo e para que os que um dia a procurem tenham onde achar.
Ricardo Coelho
Escrito por Ricardo Coelho às 12h13
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