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    Não Fique Enfezado

    Alimentação inadequada, correria, falta de tempo, estresse, todos esses fatores contribuem para que problemas digestivos e especialmente a constipação intestinal, a popular "prisão de ventre" venha se tornando uma queixa cada vez mais constante entre os que procuram a prática de yoga.

    Como não poderia deixar de ser, o Yoga tem recursos bastante eficientes para esses problemas. Entre eles, o Shank Prakshalana, que constitui-se de um método de limpeza intestinal completa e o Laghoo Prakshalana, uma versão mais "light" da mesma prática. Nos posts a seguir, coloquei a descrição detalhada do segundo método, o Laghoo, que considero que pode ser feito por quase qualquer pessoa sem maiores dificuldades. A prática completa somente deve ser feita com o acompanhamento de um profissional de yoga qualificado. Leia o texto com bastante atenção e se quiser experimentar, coloquei um vídeo bem interessante que achei no youtube com os exercícios - está em russo (acho eu...), mas dá pra acompanhar com o texto. Alguns exercícios são feitos um pouquinho diferente do que faríamos no Dakshina Tantra, mas nesse caso não fará diferença. Em seguida, coloquei um texto da colega Denise H Bandeira, que fala sobre a importância dos intestinos para o bem estar do nosso organismo (onde você vai entender o porquê do título acima).



    Escrito por Ricardo Coelho às 11h12
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    Laghoo Prakshalana

    (lavagem intestinal simplificada)

    Preparação:recomendável fazer uma dieta líquida ou semi-líquida na noite anterior. Pratique pela manhã antes de beber ou comer qualquer Deixe disponível água limpa e morna (6 copos de 200ml aproximadamente). Adicione 2 colheres de chá de sal por litro à água de modo que fique levemente salgada.

    Use roupas leves e confortáveis.


    Prática:

    1) Beba dois copos de água morna salgada o mais rápido que puder.

    2) Faça os 5 (cinco) seguintes asanas dinamicamente, oito vezes cada e na sequência correta.


    a) Tadasana

    De pé, pés juntos, ou separados um palmo. Entrelace os dedos das mãos e volte as palmas para cima, apoiando-as no topo da cabeça. Fixe o olhar num ponto à sua frente um pouquinho acima do nível da sua cabeça. Inale e alongue os braços, ombros e peito para cima. Levante os calcanhares e fique na ponta dos pés. Alongue todo o corpo. Mantenha a posição com os pulmões cheios por alguns segundos. Baixe os calcanhares enquanto exala e traga as mãos de volta para o topo da cabeça. Isto é uma volta. Relaxe por alguns segundos e recomece.

    b) Tiryaka Tadasana

    De pé, pés separados dois palmos. Entrelace os dedos das mãos e volte as palmas para cima, apoiando-as no topo da cabeça. Fixe o olhar num ponto diretamente à sua frente. Inale e alongue os braços para cima. Exale e movimente o corpo lateralmente para o lado direito. Inale e volte ao centro. Exale e movimente para o lado esquerdo. Repita 8 vezes para cada lado.

    c) Kati Chakrasana

    De pé, pés separados dois palmos. Coloque os braços para a frente, na altura dos ombros, palmas voltadas para dentro. Exale e movimente o tronco para a direita, jogando o braço direito para trás e o braço esquerdo na direção do ombro direito. Acompanhe o movimento do braço direito com o olhar. Não movimente os quadris, apenas o tronco, da cintura para cima. Inale e volte ao centro, na posição inicial. Exale e faça o mesmo movimento para o lado esquerdo. Isto é uma volta. Faça oito voltas, dinamicamente e sempre alternando os lados.

    d) Tiryaka Bhujangasana

    Deitado de barriga para baixo, apoie-se nos braços esticados. Os pés podem estar juntos ou levemente separados. Procure deixar o corpo alinhado, sem levantar ou abaixar o quadril. Exale e torça o tronco para o lado direito ao mesmo tempo em que gira a cabeça e procura olhar para o pé direito. Inale e retorne ao centro. Exale e faça o mesmo para o lado esquerdo. Isto é uma volta. Faça oito voltas, dinamicamente e sempre alternando os lados.

    e) Udarakarshanasana

    Sentado de cócoras, pés separados, mãos nos joelhos. Exale e torça o tronco para o lado esquerdo empurre a coxa esquerda contra o lado direito do abdome e empurre o joelho direito para o chão. A cabeça gira e olha por cima do ombro esquerdo. Inale e volte à posição inicial no centro. Exale e faça o mesmo para o lado esquerdo. Isto é uma volta. Faça oito voltas, sempre alternando os lados.
    Esta é uma volta completa.

    Não descanse entre as voltas.

    3) Beba mais dois copos de água salgada e novamente faça os cinco asanas, oito vezes cada.

    4) Repita o procedimento pela terceira e última vez.

    Após a terceira volta, vá ao banheiro e veja se há qualquer movimento intestinal. Não force a evacuação e não preocupe-se; se não ocorrer na hora irá ocorrer mais tarde.

    Duração: Separe uma hora para a prática.


    Frequência:Uma vez por semana é suficiente para a maioria dos casos. Nos casos de constipação pode ser praticado diariamente até que haja melhora.

    Descanso: Após completar a prática, descanse por 30 minutos antes de beber ou comer qualquer coisa.

    Restrições: Não há restrições especiais de alimentação.

    Precauções: Não tente forçar a evacuação, isso deve acontecer totalmente de forma natural.

    Contra-indicações: Pessoas que sofram de qualquer enfermidade deverão consultar um profissional qualificado de yoga antes de tentar o Laghooprakshalana. Esta prática também deve ser evitada por gestantes.

    Benefícios: Diferentemente do Shankprakshalana, método completo de limpeza intestinal, o Laghooprakshalana ou método simplificado objetiva apenas incrementar o funcionamento normal dos intestinos. É um método excelente e simples de estimulação da movimentação intestinal e ideal para aqueles que não podem fazer o método completo. Laghoo é altamente recomendado para aqueles que sofrem de desordens digestivas como constipação, flatulência, acidez, indigestão e outros males digestivos. Ajuda a prevenir infecções urinárias e a formação de cálculos renais, além de ser usada em muitas técnicas terapêuticas de yoga.

    Notas: Grandes benefícios podem ser obtidos se combinarmos esta prática com alimentação leve ou dietas. Medicações podem continuar sendo tomadas sem problemas.

    Traduzido e adaptado do livro 'Asana Pranayama Mudra Bandha', de Swami Satyananda Saraswati, por Ricardo Coelho



    Escrito por Ricardo Coelho às 11h02
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    Escrito por Ricardo Coelho às 10h56
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    Limpeza intestinal

      A importância dos Intestinos para o Bem Estar do Organismo

     Relação Intestino e Cérebro

    A ciência e as pesquisas médicas têm demonstrado através de estudos recentes a importância do sistema gastrointestinal e mais especificamente do intestino, para a manutenção da saúde e do bem estar. O intestino passou a ser reconhecido como um ''órgão inteligente'' por sua capacidade de selecionar entre o que comemos, o que nos é ou não útil, e por ser o único órgão do corpo humano capaz de executar funções independentemente do Sistema Nervoso Central, chegando a ser recentemente denominado por especialistas como um ''segundo cérebro''.

    As principais funções do intestino grosso.

    eliminação das fezes; reabsorção de água e nutrientes; contribui com o sistema imunológico (80%). Em termos de células como por exemplo, de linfócitos, o sistema imunológico do intestino é o mais importante do organismo e produz certas substâncias que regulam as reações imunológicas.hospeda a flora microbiana que exerce várias funções importantes. Essas bactérias digerem uma parte da celulose, sintetizam vitaminas (complexo B e K); e destroem micróbios e bactérias patogênicas.  Limitar o papel do intestino à digestão seria reduzir consideravelmente a importância desse órgão. Ele é dotado de um sistema nervoso constituído por 100 milhões de neurônios (tanto quanto a medula espinhal), que elaboram cerca de vinte neurotransmissores, entre os quais a serotonina, reguladora do humor, que influi nos distúrbios depressivos. Os cientistas falam hoje do intestino como o "segundo cérebro" do corpo humano, capaz de enviar sinais ao cérebro.

    Intestinos e defesa imunológica:

    Na parede intestinal encontra-se cerca de 80 % do nosso potencial imunológico, como também o hormônio de crescimento que combate os sintomas do envelhecimento.

    Relação do intestino com a alegria:


    Cerca de 90% da serotonina (que é o neurotransmissor responsável pela a alegria) é produzido no intestino. A serotonina está baixa em pessoas com depressão, demonstrando a importância do bom funcionamento intestinal nestas pessoas.

    A prisão de ventre também tem influencia no humor das pessoas, como podemos perceber, com o uso da palavra "Enfezada" (cheia de fezes), referindo-se a pessoas com mau-humor.

    Importância da limpeza intestinal do Yoga chamada Shank Prakshalana

    No Gheranda Samhita, um dos textos de Hatha Yoga, são recomendadas seis limpezas corporais chamadas Sat Karmas, e entre elas está o Shank Prakshalana, ou limpeza de todo o aparelho digestivo incluindo os intestinos. Essa limpeza deve ser realizada de 1 a 2 vezes ao ano, de preferência na entrada da primavera e outono. Existe uma forma curta, Laghoo Shank Prakshalana, que pode ser realizado 1 vez por semana, e em casos de constipação diariamente até a normalização do intestino. A vantagem dessas limpezas é a recuperação do movimento peristáltico dos intestinos, sem os efeitos danosos que os laxantes (uso diário) causam, irritando a mucosa intestinal e ocasionando paralisia intestinal e a síndrome do intestino irritável. Na técnica do Laghoo e do Shank Prakshalana a pessoa, ainda em jejum, bebe água morna e salgada e faz uma seqüência de 5 exercícios que conduzem a água desde o estômago até o ânus. Essa prática do Yoga faz com que o material aderido, por vezes, dezenas de anos seja removido das paredes intestinais.

    Porque limpar os intestinos?

    Os intestinos são constituídos de válvulas coniventes (ondulações semelhantes a um leque), vilosidades (projeções semelhantes a finos dedos) e microvilosidades (semelhante a borda-em–escova, 1000 microvilosidades) que aumentam mil vezes a área de absorção da mucosa intestinal (área total de 250m2), mas esta combinação de pregas, projeções e microvilosidades também constituem áreas de aderência do bolo fecal, e diferente do que pensamos, não são limpadas automaticamente. A aderência do bolo fecal nas paredes dos intestinos com o conseqüente ressecamento e o acumulo de gases e muco acaba impedindo o movimento natural dos intestinos.

    Efeitos da prática:

    Frescura do hálito, sono tranqüilo e transpiração inodora;

    Dissipa a constipação intestinal;

    Alivia a indigestão, gases e acidez estomacal;

    Remove o excesso de muco aliviando a asma, sinusite, alergias e resfriado;

    Alivia o sintomas de artrite e doenças inflamatórias;

    Fortalece o sistema imunológico;

    Ajuda na assimilação correta do alimento e combate a obesidade (ver acima hormônios secretados)

    Ajuda no rejuvenescimento, limpa a pele e da brilho e vitalidade aos cabelos e pele;

    Ajuda a combater enxaquecas, fadiga crônica, stress, celulite e outros males advindos da intoxicação intestinal;

    Auxilia na cura da fibromialgia, psoríase;

    É utilizado na cura da diabete, hipoglicemia, obesidade e colesterol elevado;

    Estimula o fígado e glândulas anexas do tubo digestivo;

    Ajuda valiosa no combate a depressão, melhora o humor e o estado mental;

    Os efeitos psíquicos são muitos e ligados aos chakras Muladhara e Svadhisthana.

    Muladhara: ajuda a pessoa a desapegar-se e lidar melhor com os medos e perdas.

    Svadhisthana: ajuda a trabalhar a repressão sexual e combate doenças e irregularidades do aparelho de reprodução e urinário (infecção, pedras nos rins..);

    É uma técnica de prevenção ao câncer intestinal;

    Ajuda valiosa na cura da síndrome do cólon irritável e colites.

    Estimula o peristaltismo intestinal (movimento de contração do intestino);

    Expulsão de vermes e parasitas indesejáveis;

    Ajuda a curar Infecção parasitária;

    No cólon intestinal existem áreas reflexas que ao ser estimuladas produzem melhoras nos casos de enxaquecas, amigdalites, cistites...


    Para ler o texto integral, acesse http://www.yogalotus.com.br/

    Outro texto esclarecedor sobre obstipação intestinal em http://www.alimentacaosemcarne.com.br/textos-publicados-na-revista-vegetarianos/prisao-de-ventre-doutor-e-agora.html



    Escrito por Ricardo Coelho às 10h50
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    Vejam a notícia que saiu no O Globo do dia 22, domingo. Pelo jeito eles sofrem dos mesmos problemas da globalização que nós. E em alguns aspectos até estamos um pouco melhores. Isso , infelizmente mostra, que embora berço do yoga, a Índia perdeu bastante o contato com suas tradições.

     

    Na Índia, a batalha do guru da ioga contra vícios do Ocidente

    Baba Ramdev é convocado pelo governo, preocupado com estresse e consumo crescente de fast-food, cigarro e bebida

    Florência Costa
    Correspondente
    O Globo, O Mundo, página 42, em 22/06/2008.

    NOVA DÉLHI. Baba Ramdev, o mais badalado guru da ioga no mundo, é a mais poderosa arma do governo indiano na guerra contra a fast-food, o álcool e o cigarro. Os vícios conquistaram a classe média indiana (cerca de 350 milhões de pessoas) a partir da liberalização da economia nos anos 90.

    Hoje há uma verdadeira epidemia de obesidade, doenças cardíacas, diabetes, entre outras doenças. Segundo o Centro de Estudos de Saúde de Bangalore, até 2010 cerca de 60% dos pacientes com problemas cardíacos do mundo estarão concentrados na Índia.

    Doenças relacionadas ao cigarro tiram a vida de 1 milhão de indianos por ano, no país onde 120 milhões de pessoas são fumantes.

    Com um cenário tão preocupante, o governo decidiu pedir socorro ao chamado “messias da ioga”. Ele promete, através de seus métodos, uma vida saudável, sem estresse ou doenças.

    O acordo foi selado na casa do ministro da Saúde, Anbumani Ramadoss. Os dois vão trabalhar para propagar a ioga.

    — A Índia tem um quarto da população infantil mundial. Se essas crianças continuarem comendo fast-food e refrigerante vai ser devastador para o futuro do país, com número recorde de doenças — explicou o ministro, que quer fazer o governo obrigar escolas públicas e privadas a dar aulas de ioga.

    Apoio contra o fumo em Bollywood Com o apoio do guru, o ministro da Saúde ganhou aliado poderoso contra estrelas de Bollywood que costumam aparecer fumando nas telas.

    Estudo de 2005 mostra que se antigamente apenas vilões fumavam nas telas, hoje, em 70% dos filmes, heróis e mocinhas usam cigarros para mostrar que são independentes e glamourosos.

    A milenar ioga já está começando a fazer a cabeça de soldados do Exército indiano e policiais de algumas cidades, que já estão se submetendo ao tratamento de Baba Ramdev para perder peso e ganhar resistência.

    Apesar de ter nascido na Índia, a ioga não fazia parte do dia-a-dia dos indianos até a década de 80, trazida de volta pelos ocidentais após a onda hippie dos anos 70.

    Mas só recentemente a ioga começou a se fortalecer novamente do país, e de forma intensa.

    — A Índia pode se tornar uma potência mundial através da ioga.

    A revolução vai começar pela ioga — costuma dizer Baba Ramdev, que treinará cem mil professores para atuar em 600 mil vilarejos rurais, onde está concentrada 70% da população.

    A aliança entre Baba Ramdev e o ministro Ramadoss chamou atenção. Os dois tiveram recentemente um bate-boca devido às polêmicas afirmações do guru, que também propaga a medicina alternativa indiana ayurveda (com remédios a base de ervas).

    O nó da briga são as pregações de Baba Ramdev contra a medicina, e as polêmicas afirmações de que a ioga pode curar um imenso leque de doenças, de acne até câncer e AIDS.

    Baba Ramdev é uma figura polêmica e costuma comprar brigas. Uma parlamentar comunista chegou a acusar sua empresa, de manipulação de remédios ayurvédicos, de usar ossos humanos como ingredientes e também testículos de animais em remédios contra impotência.

    Mas a acusação não foi comprovada.

    Hoje, o ministro é só elogios ao guru: — Ramdev está fazendo um fantástico trabalho de propaganda e está cientificamente comprovado que a ioga faz bem para a saúde.

    O guru indiano já está de olho na vizinha China como novo território para estender seus centros de ioga: —ioga não é religião. Não há melhor alternativa à espiritualidade para um país comunista do que a ioga — justificou o pragmático guru.



    Escrito por Ricardo Coelho às 10h34
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    Yoga com tênis.

    A popularização do yoga1 no ocidente e sua absorção pela mídia e grandes corporações é algo até certo ponto natural e inevitável, mas podemos tentar prevenir algumas deformações que podem parecer não causar maiores consequências, especialmente se não conhecemos a fundo os princípios da disciplina. Funciona como aquela brincadeira infantil do telefone sem fio. A cada nova retransmissão, pode-se deformar ou mesmo perder o conhecimento original. Aqui no Brasil temos a tendência natural de absorver o conhecimento com a intermediação dos centros predominantes cultural e economicamente no mundo. Não estou procurando fazer aqui um libelo anti-imperialista, mas devemos tomar cuidado com o aprendizado de algumas disciplinas, oriundas de culturas que até há relativamente pouco tempo atrás eram pouco acessíveis, tais como, por exemplo, a acupuntura, o budismo e especialmente no nosso caso, o yoga, que tem origem na hoje já não tão longinqua e nem tão inacessível Índia. Por que absorver o conhecimento ancestral indiano com a intermediação de outra cultura, quando pudermos, na medida do possível, buscá-lo diretamente na fonte?

    No Brasil, felizmente, a prática e o ensinamento do yoga não é algo novo, e podemos dizer que já possui alguma tradição, graças ao esforço pioneiro desde a década de 1960 de mestres como Hermógenes, Caio Miranda e outros menos conhecidos mas tão importantes quanto. Claro que, com a popularização da busca pelo conhecimento oriental, naturalmente grandes mestres indianos começaram a divulgar seu conhecimento a partir da metrópole americana, principalmente. O que me preocupa é que tenho visto ultimamente alguns jovens buscadores brasileiros procurando seu referencial nos Estados Unidos e exibindo seus currículos de cursos feitos com “grandes mestres americanos”. Alguns talvez sejam, não estou aqui para questionar isso, mas devemos estar atentos para não receber informações deformadas por ignorância, adaptação cultural ou mesmo por interesses econômicos. Precisamos analisar o conhecimento a nós transmitido com equilíbrio e certo espírito crítico.

    Para explicar melhor, tentarei descrever um exemplo real de como a desinformação pode gerar deformações graves no aprendizado da disciplina. Mais do que aprender as implicações fisiológicas e discorrer sobre os efeitos das posturas de yoga sobre a musculatura, ossos e articulações, como vem predominando no ensino popular do hatha yoga e outras modalidades, é necessário conhecer e preservar os conceitos fundamentais da prática, caso contrário poderemos, inocentemente, alterar um pequeno detalhe que aparentemente não fará diferença alguma, mas que pode comprometer toda a estrutura do conhecimento, transformando o yoga numa prática de ginástica de alongamento simplesmente ou ainda em algo próximo da ginástica desportiva.

    É preciso ressaltar que não basta imitar fisicamente os movimentos do yoga. Yoga não é ginástica, que é da alçada dos colegas profissionais de Educação Física. Um professor de Yoga não é professor de educação física nem deve pretender sê-lo, embora nada impeça que um professor desta disciplina, com o aprendizado devido, possa vir a ser professor de yoga. Yoga também não é medicina, nem mesmo alternativa, embora possa ser usada para melhorar a saúde do indivíduo, trazendo grandes benefícios terapêuticos. Deixemos a medicina para os médicos. Yoga também não é psicoterapia, embora esteja intimamente ligada ao equilíbrio da psique humana e possa ser usada como ferramenta de apoio a qualquer terapia psicológica tradicional. Não é religião, embora seja ancorada numa tradição ancestral de espiritualidade, e possa ser usada como ferramenta de crescimento espiritual, independentemente da formação cultural-religiosa do indivíduo.

    Enfim, o yoga não é nada disso, mas é um pouco de tudo isso. Georg Feuerstein2 definiu-a muito bem como sendo uma “Tecnologia Psicoespiritual”, ou seja, “uma sabedoria e um conhecimento aplicados ao serviço do destino evolutivo superior da humanidade através do estímulo à maturação psicoespiritual do indivíduo”. De forma mais simplista, poderíamos definir o yoga como um caminho. Um caminho estruturado para o autoconhecimento e evolução do ser humano.

     

    Foto 1 - Parivritta Janu Shirshasana


    Mas, vamos ao exemplo prático – por que não fazer yoga de tênis? Vejamos a postura da foto como exemplo: Chama-se, em sânscrito, Parivritta Janu Shirshasana, que significa “postura torcida da cabeça em direção ao joelho”. Vejamos o que diz o livretinho3, editado por uma empresa fabricante de artigos esportivos e distribuído num grande evento de yoga, na descrição da postura – atenção especial às indicações:

    Como fazer: sente-se em Dandásana (coluna ereta, pernas unidas e estendidas à frente do corpo, tornozelos internos juntos, mãos ao lado dos quadris). Com a mão direita, puxe o joelho interno direito para o lado direito, flexionando-o para fora. Flexione o tronco na direção da perna esquerda e aproxime da coxa anterior esquerda a cintura do lado esquerdo.

    Indicações: Desenvolve os tornozelos e fortalece os músculos das pernas, costas e abdômen. Abre o peito e refina a postura natural da praticante. Previne cãibras nos músculos gêmeos (panturrilhas).

    Contra-indicações: hérnia de disco.”


    A postura supracitada é uma variação, com torção, da postura abaixo, Janu Shirshasana, cujos benefícios terapêuticos são descritos da seguinte forma pelo renomado Mestre indiano B. K. S. Iyengar4: 

    Foto 2 - Janu Shirshasana


    Em sânscrito, janu é “joelho” e sirsa é “cabeça”. A prática dessa postura exerce um impacto dinâmico sobre o corpo e traz muitos benefícios. Alonga a parte anterior da coluna e reduz os enrijecimentos dos músculos das pernas e das articulações dos quadris. Aumenta a flexibilidade de todas as articulações dos braços, desde os ombros até os dedos. Flexões como Janu Sirsasana recondicionam o lobo frontal e o coração. Tonifica os órgãos abdominais. Estabiliza a pressão sanguínea. Corrige gradualmente desvios de coluna e ombros encurvados.”


    Como podemos perceber, ambas as descrições são bastante detalhadas e dão ênfase aos benefícios fisiológicos da postura, bem ao gosto ocidental. Atenção ao detalhe da perna esquerda dobrada. Em ambas o calcanhar toca o períneo, localizado entre o ânus e o sexo. Por acaso? O que não é explicado, mesmo na perfeita e detalhada descrição do grande Mestre Iyengar, é que há um aspecto energético sutil nesta postura na qual é dada ênfase à energização de determinados chakras (centros energéticos sutis). Segundo o ponto de vista do Dakshina Tantra Yoga, neste caso, além do manipura chakra, localizado na altura do umbigo, há ênfase na energização do muladhara chakra, cujo ponto de localização é exatamente no períneo, ao ser pressionado pelo calcanhar.

    Ambos os exercícios também preparam o aluno para um estágio mais avançado da prática, através da postura descrita abaixo, que rigorosamente não será considerada mais um asana (postura) e sim um Mudrá5, conhecido no Tantra como Maha Mudra (a Mudrá de Grande Importância), descrita pelo Professor Paulo Murilo Rosas6 da seguinte forma:


    Foto 3 - Maha Mudra

    Aspectos fisiológicos: Tonifica e fortifica os órgãos abdominais, os rins e as glândulas supra-renais. Cura indigestão, dispepsia e prisão de ventre. Segundo o Sr. Iyengar, os homens se beneficiam com esta postura, desde que a pratiquem persistentemente. Também as mulheres que têm prolapso uterino encontram um grande alívio com esta postura, porque ela ajuda a repor o órgão no lugar.

    Aspectos psicológicos: A pressão do calcanhar – primeiro o esquerdo, depois o direito – na região do períneo excita a energia do Muladhara Chakra e bloqueia a passagem do Prana ora por Idá, ora por Pingalá, dando ênfase à energização pela Sushumna Nadi. (...) A energização de todos os Chakras na raiz é muito importante dentro do ponto de vista Tântrico, pois somente com esta energização é que poderemos vivenciar a plenitude das características da nossa personalidade.”

    Aqui, na descrição tântrica, sem deixar de descrever os aspectos fisiológicos, há enfase na descrição dos efeitos energéticos sutis da postura.

    Traduzindo de forma simples, há a necessidade do calcanhar tocar e pressionar o períneo de forma a fechar um circuito energético corporal, além de exercer uma pressão no ponto (quem estiver mais familiarizado com os conceitos de pontos de acupuntura, da medicina chinesa, pode fazer uma analogia aproximada).

    Embora, do ponto de vista estritamente físico não seja nenhum grande pecado fazer a postura com o acréscimo de um tênis (da marca dos nossos patrocinadores...), do ponto de vista do yoga é um erro gravíssimo colocar uma estrutura isolante de borracha entre os pontos de contato corporais. Se você fizer essa postura com o tênis, ainda conseguirá a maioria dos benefícios físicos superficiais, mas não poderá mais chamar a isso de yoga. Será, no máximo, mais um exercício de alongamento, inspirado no yoga. Esse é apenas um pequeno exemplo de como, a longo prazo, a ignorância conceitual de uma disciplina profunda e complexa pode gerar problemas como esse e talvez outros mais graves.

    Atentemos para mais um detalhe, de modo a não sermos enganados pelas aparências: Qual das ilustrações acima apresenta a postura mais avançada? Se você respondeu número três, acertou. Embora aparentemente as outras fotos apresentem posturas que exigem maior flexibilidade, no Maha Mudra, além do calcanhar no períneo, o praticante faz Jalandhara Bandha7 e Mula Bandha, com retenção da respiração com o pulmão cheio, seguido de Uddhyana Bandha, com retenção com o pulmão vazio. É uma prática somente recomendada para alunos bastante avançados, dada sua dificuldade e o grande aporte energético. Portanto, não se deixe impressionar por imagens de pessoas fazendo posturas que exigem flexibilidade fora do normal ou grande força física. Isso não habilita uma pessoa necessariamente como um praticante avançado.

    Se posso oferecer um conselho aos colegas professores e aos praticantes é: Não invente! Os mestres indianos levaram alguns milhares de anos criando e depurando uma prática que aproxima-se da perfeição. Não podemos colocar nossa pretensão e soberba cultural acima disso. Procure seguir a tradição da melhor maneira que puder, sem tentar “melhorar” o yoga. Não invente novas modalidades de yoga exóticas com nomes impactantes para fazer marketing ou com seu próprio nome para alimentar o ego. Faça do yoga uma maneira de tornar as pessoas melhores e consequentemente tornar o mundo melhor. Ainda está em tempo e os Grandes Mestres agradecem. Afinal, para isso o Yoga foi criado.

     

    Ricardo Coelho


    1Estou grafando neste texto a palavra “yoga” no gênero masculino (o yoga) e em itálico, como seria em sânscrito, sua língua de origem. Nada contra o termo aportuguesado “ioga”, que nesse caso seria no gênero feminino (a ioga). Também grafei os termos em sânscrito, de forma o mais fonética possível, para evitar deformações na pronúncia, outro item que vem sendo influenciado pela intermediação da tradução do sânscrito para o inglês antes de ser traduzido para o português.

    2Livro: A Tradição do Yoga , pags 28, 29 – Ed. Pensamento

    3Livreto: Guia Play Yoga – distribuído aos participantes do evento “Play Yoga” - São Paulo, abril de 2008.

    4Livro: Iyengar Yoga – posturas principais, pags 94 a 97 - Ed. Cores e Letras

    5 Mudras são gestos que servem para imobilizar o Prana (energia sutil) em determinadas regiões.

    6Livro: Avanthara Sadhana – técnicas tântricas – Ed.Exímia.

    7Bandhas são “chaves” energéticas de direcionamento e/ou retenção da energia, usados isoladamente ou em conjunto para formar certos Mudras.



    Escrito por Ricardo Coelho às 21h50
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